Na grua, funcionário da obra evitou tragédia maior no Metrô

Primeiro veio o estrondo. Depois, a ordem pelo rádio. "Manda o grueiro descer!" Os passos seguintes de Izaías de Souza Pereira, de 53 anos, foram "escada de marinheiro" abaixo. Antes, apesar do nervosismo, o comandante da estrutura metálica amarela que levanta e baixa solo e maquinário na obra na futura Estação Pinheiros do Metrô ainda teve calma para um ato de profissionalismo.Trouxe a caçamba para o pé do guindaste e descarregou as quase 9 toneladas de terra que erguia do buraco, gesto-chave para evitar que todo o peso fosse solto no ar, talvez na cabeça de quem tentava subir do fosso, podendo provocar uma tragédia ainda maior. "Fiz o que tinha de fazer", disse ele. "E cumpriu direitinho as normas de segurança", frisou um funcionário das empreiteiras que acompanhava a entrevista.Na seqüência, o operário foi cuidar de salvar a própria vida. Viu "o pessoal correr", soltou o cinto de segurança e começou, degrau por degrau, a descer os 41 metros da grua - isso até o nível da rua; até o fundo da escavação são mais 38 metros.No chão, correu para fora do canteiro. Foi exatamente na hora do grande desmoronamento. "Não sei nem comparar (o barulho). Parecia um terremoto. Nunca vi um (terremoto), só pela televisão, mas parecia", contou na quinta-feira, com exclusividade, ao Estado. Baiano de Paulo Afonso (cidade a 480 quilômetros de Salvador) e "guindasteiro" há mais de 13 anos, Izaías diz ter tido a impressão de que tudo aconteceu em "dois, três minutos, no máximo".Mas os problemas ainda não estavam terminados. Enquanto corria para longe do canteiro de obras, viu o guindaste totalmente fora de controle. "A grua deu um retrocesso (após o colapso do túnel, a estrutura balançou e continuou instável). Achei que ia cair. Meu medo era esse: não sabia para onde fugir."Titular do turno das 8h30 às 18h30, revezando com dois outros colegas - "o Ricardo e o Erivaldo" -, Izaías já trabalhou em grandes empreendimentos pelo Brasil, como na Usina Hidrelétrica de Xingó, em Alagoas, de Tucuruí, no Tocantins, e de Itaparica, na Bahia. "Fui sinaleiro (profissional que, do chão, orienta o trabalho do grueiro) por dois anos antes de subir numa grua. Hoje é tudo mais moderno, mas no meu tempo era assim que funcionava." Pela jornada de oito horas diárias, o operário recebe um salário R$ 1.038. "Tá meio defasado, né?"Izaías fica com os olhos marejados quando fala do colega Francisco Sabino Torres, caminhoneiro morto no acidente e resgatado dos escombros na madrugada de quarta-feira. "Era um bom profissional. E não estou falando isso porque morreu, não. Era uma pessoa boa, que não dava trabalho mesmo." Casado e pai de duas meninas, Izaías explica que não pretende abandonar a obra. "Vivo de vender minha hora; é aqui que ganho o meu pão. Só saio se eles (a empreiteira) não me quiserem mais", diz, com um sorriso no rosto.Izaías só lamenta o nervoso pelo qual passou a mulher ao ver as imagens do desmoronamento pela televisão. "Ela tinha sido operada uns dias antes."

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