Na janela de dona Lourdes, uma outra Lapa

Boom imobiliário mudou o entorno

Mônica Cardoso, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

15 de junho de 2009 | 00h00

Por mais de 60 anos, Maria de Lourdes Mascagne Vasques, de 83 anos, morou em uma casinha térrea, geminada, na Lapa, zona oeste de São Paulo. Seu endereço na Rua Vespasiano, no entanto, não existe mais. Foi demolido, assim como outras seis residências do mesmo quarteirão, para dar origem a um condomínio. "Quando vi a casa demolida até chorei." Só uma casa resiste em pé, mas é por falta de documentação. Isso porque as construtoras oferecem propostas praticamente irrecusáveis, com valor bem superior à média do mercado. Dona Lourdes não quis sair do bairro e há exatamente um ano se mudou para um apartamento de dois quartos. "Ainda estranho muito. Parece que fico fechada no apartamento. Não tenho quintal nem jardim para cultivar minhas plantas", conta. Ela lembra com saudades do tempo em que todos se conheciam no bairro, que abrigava muitos descendentes de italianos. "Eu gostava como era antes. As ruas eram gostosas, tranquilas. Quando saía, cumprimentava todo mundo. Agora, mal conheço minha vizinha de porta", compara. Nos últimos anos, a Lapa vive um boom de lançamentos de prédios de alto padrão, com quatro dormitórios, lazer completo e três vagas na garagem. Em cada rua do bairro há pelo menos um em construção. Da janela do apartamento de dona Lourdes, é possível ver dez torres, das quais três ainda estão em obras. Com preços que variam de R$ 700 mil a R$ 1 milhão, os apartamentos atraem moradores de classe média alta. E a cara do antigo bairro, de descendência predominante italiana, está mudando. As ruas estreitas começam a ficar congestionadas por conta do aumento do número de veículos em circulação. A Rua Tito, que dá acesso para a Lapa e para a Pompeia, costuma ficar intransitável no fim da tarde. Padarias antigas que mantêm o mesmo jeitinho de antigamente convivem com novos estabelecimentos, com mais requinte e preços maiores. Novas lojas, restaurantes, bares e farmácias abrem as portas. "O custo de vida está aumentando. Aqui vai se transformar em uma nova Moema, apenas com edifícios e estabelecimentos comerciais", diz a pedagoga Claudia Brondi Calabria Nucci, de 38 anos, sobrinha de dona Lourdes. "O padrão de vida está aumentando. Uma casa que antes custava R$ 200 mil, hoje vale R$ 500 mil. Essa mudança valoriza o bairro, mas também aumenta o número de roubos. A cada semana, escuto falar de algum novo caso."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.