Na planície, com sabor de planalto

Até ministros continuam 'trabalhando' pelo ex-presidente, ainda que no novo governo Dilma

Julia Duailibi, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2011 | 00h00

Não é raro ex-presidentes, ao se afastarem do poder, mencionarem certa estranheza com a prática de atividades cotidianas, como lavar a louça ou abrir portas com as próprias mãos. Mas, na primeira semana como ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva não pode reclamar das tarefas da vida civil: longe do Palácio do Planalto, viveu ainda a rotina presidencial.

Lula manteve práticas da época de governo: passou férias em instalações do Exército, respaldado por funcionários da Presidência - ex-presidentes têm direito a contratar até oito assessores. Viu-se envolvido em polêmicas, como a concessão de passaportes diplomáticos para seus filhos, e acompanhou o desdobramento de medidas tomadas por ele ainda na Presidência, como o caso Cesare Battisti.

Até ex-ministros de Lula continuaram "trabalhando" pelo ex-presidente, ainda que no governo Dilma. Na quinta-feira, o titular da Educação, Fernando Haddad, contatou por e-mail o reitor da Universidade Federal do ABC, Helio Waldman, para iniciar diálogo sobre a criação de um memorial Lula.

Em meio à incipiente disputa entre aliados sobre o futuro de seu acervo, o petista passou a primeira semana num cenário de sol, mar e alguma chuva, degustando linguiças, queijo coalho e "cervejinhas". Do Forte dos Andradas, base do Exército no Guarujá, litoral paulista, conversou com amigos envolvidos com o projeto do memorial e do Instituto Lula. Os contatos foram feitos por intermédio da segurança e com certa dificuldade, já que celulares e até a internet não estavam com bom sinal.

Retorno. Na véspera da volta a São Bernardo do Campo, Joana, funcionária do ex-presidente há cerca de 20 anos, organizava caixas com mudanças que chegavam ao apartamento 122, uma das coberturas de 186 m² do edifício Hill House, comprado em 1996.

Amigos apareceram para deixar presentes. O ex-metalúrgico Juno Rodrigues Silva, o Gijo, levou para lá a chuleta paulista, pronta para ir ao forno.

Depois de 2.920 dias no poder, Lula aportou em São Bernardo do Campo no fim de noite chuvoso do 1º de janeiro, com a declarada missão de "desencarnar" do cargo de presidente. Demonstrando cansaço, seguiu o script dos tempos de presidência: abraçou colegas, subiu no palanque e discursou. "Volto para casa de cabeça erguida com a sensação de dever cumprido", disse para 2 mil pessoas, ao som de Como é grande o meu amor por você.

Nos dois dias seguintes, Lula parecia mesmo decidido a "desencarnar". Em casa, assistiu a TV, comeu pastel feito pela mulher, Marisa Letícia, leu os jornais. Apareceu uma única vez na varanda. Vestindo camiseta regata azul-claro, parecia à vontade com a distância do poder.

Pausa. Mesmo antes de voltar à ativa - Lula pretende ficar 30 dias de férias -, a agenda já está carregada. Além das dezenas de pedidos de audiência, compilados pela assessora da época de Presidência, Clara Ant, o petista tem pela frente uma maratona.

Para o mês que vem está previsto o chute inicial na partida entre Corinthians e São Bernardo no Pacaembu. Em sua cidade, deve participar também de cerimônia em que marcará as mãos no cimento, numa espécie de hall da fama, no diretório do PT.

"Mas estamos ainda no começo", disse Clara Ant, após reunião na quarta-feira com arquitetos que reformarão o Instituto Cidadania, ONG que Lula presidia antes de ir para o Planalto. O casarão do Ipiranga começa a ser remodelado amanhã. Receberá computadores, pintura e esquema segurança. "Será a sede provisória do "desgoverno"", brinca Paulo Okamotto, que vai da presidência do Sebrae para a ONG.

A sede do futuro Instituto Lula só será definida com a volta do ex-presidente. Ficará provavelmente na zona sul paulistana, na Vila Mariana ou no Ipiranga, regiões que dão acesso mais rápido a São Bernardo. No escritório, Lula pretende divulgar projetos de combate à pobreza na América do Sul e na África. Com a equipe, formada ainda pelos ex-ministros Luiz Dulci (Secretaria-Geral) e Paulo Vannuchi (Direitos Humanos), criará um fórum de esquerda para debater temas como reforma política.

O memorial, onde serão catalogadas as 850 mil cartas do ex-presidente, imagens e objetos da época na Presidência, funcionará como um museu interativo, que usará os anos Lula como eixos para discutir a história do Brasil. O local ainda está longe de ser definido.

"Faz sentido ser em São Bernardo, onde tudo começou", diz Wanderley Salatiel, presidente do PT local. Assessores de Lula, no entanto, acham que deve ser em São Paulo.

Mas, na primeira semana do ex-presidente, a pergunta que mais rondou os lulistas não foi sobre o instituto ou o endereço do memorial. E, sim, se ele voltará em 2014. Ao se despedir dos funcionários do Alvorada, Lula ajudou a alimentar o enigma: "Será que vou conseguir voltar a tomar banho de piscina aqui?"/ COLABOROU ROLDÃO ARRUDA

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