Beto Barata/AE
Beto Barata/AE

Na pressão por cargos, PMDB agora ameaça rejeitar mínimo de R$ 540

Cúpula peemedebista coloca a presidente Dilma em situação desconfortável ao criar empecilhos para aprovar o salário mínimo no Congresso; atitude é clara retaliação ao novo governo pela perda de funções estratégicas no segundo escalão

Adriana Fernandes, Fábio Graner, João Domingos e Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2011 | 00h00

Três dias depois do início do governo, o PMDB do vice-presidente Michel Temer tenta encurralar a presidente Dilma Rousseff. Insatisfeito com os avanços do PT sobre os cargos do segundo escalão com orçamentos milionários, antes controlados pelo partido, o PMDB anunciou que iniciará a retaliação pela votação do novo salário mínimo. O governo quer mantê-lo em R$ 540; o PMDB quer mais. O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) vai apresentar uma emenda na Câmara para elevar o salário mínimo para R$ 560 reais.

Essa reação era a que Dilma mais temia. Antes mesmo de tomar posse, ela vinha sendo aconselhada pelo ministro da Casa Civil, Antonio Palocci (PT), a tomar cuidado com o PMDB, especialista em usar o peso de sua bancada para pressionar por cargos importantes no governo.

Um eventual aumento do salário mínimo provocará um estrago nas contas do governo. No último dia como presidente, Luiz Inácio Lula da Silva editou medida provisória fixando o mínimo em R$ 540. De acordo com o Ministério do Planejamento, cada real representa um aumento de R$ 286,4 milhões no Orçamento. Se o PMDB comandar uma operação de reajuste, estará ameaçando logo no início do governo a política de austeridade fiscal pregada por Dilma.

Porta-voz da revolta dos peemedebistas, o líder do partido, Henrique Eduardo Alves (RN) - até agora uma espécie de alvo dos petistas na maioria das rasteiras levadas pelo PMDB no preenchimento dos cargos - anunciou ontem, depois de uma reunião com Temer e com os senadores José Sarney (AP), presidente do Senado, e Valdir Raupp (RO), presidente interino do PMDB, que o partido quer saber por que o governo chegou ao valor de R$ 540. Levou o pleito de um valor maior ao ministro das Relações Institucionais, Luiz Sérgio. "O Congresso existe para melhorar as propostas, não só para carimbá-las."

O PMDB programou uma reunião ontem à noite com ministros e as lideranças do partido, em Brasília, na casa da governadora Roseana Sarney(MA).

Antevendo a crise, Dilma já havia convocado Temer e Sarney a ajudá-la. Ao mesmo tempo, Palocci telefonava a peemedebistas para dizer que o PMDB terá postos no segundo escalão equivalentes aos que perdeu na Saúde e nos Correios.

Ainda na noite de segunda-feira, Temer aproveitou a primeira reunião da coordenação política do governo para pedir a Dilma que adiasse a escolha dos cargos do segundo escalão para depois da eleição das Mesas da Câmara e do Senado, em 1.º de fevereiro, como revelou o Estado. A intenção era evitar que a crise contaminasse as votações. Dilma acatou as ponderações. No dia seguinte, no entanto, o PMDB apresentou a primeira cobrança à presidente, por um mínimo maior.

Recados. A reação no Planalto, de acordo com assessores de Dilma, foi de estupefação. Dilma foi aconselhada por Palocci a manter o diálogo e esperar pela posse do novo Congresso, com renovação de cerca de 50%. Ela mandou recados ao PMDB por intermédio do ministro da Fazenda, Guido Mantega. "Se vier algo diferente disso (R$ 540), vamos simplesmente vetar", disse. "Um aumento acima disso pode provocar expectativas negativas, até mesmo de inflação", acrescentou. O tom forte da fala de Mantega foi criticado no Planalto. Alguns assessores avaliaram que não ajuda no diálogo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.