Na primeira operação do governo Rosinha, polícia mata 10

Na primeira grande operação realizada na gestão da governadora Rosinha Matheus (PSB), que previa o cumprimento de quatro mandados de prisão contra traficantes, a polícia do Rio matou pelo menos dez pessoas ? seis dentro de uma casa, entre elas um jovem de 17 anos que seria inocente ? em duas favelas de Bangu, zona oeste da cidade, no início da manhã desta sexta-feira. Um cabo da PM também morreu em confronto com criminosos e um inspetor levou um tiro na cabeça e está internado em estadomuito grave.Na operação, que estava sendo planejada pela Polícia Civil desde dezembro e envolveu 277 homens, dois PMs que moram no local ? um do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e outro de 27.º Batalhão (Santa Cruz) ? foram presos, acusados de envolvimento com traficantes e de atirar na perna de um inspetor da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core).A polícia chegou às favelas da Coréia e do Rebu por volta de 8 horas da manhã. Munidos de mandados de busca expedidos pela 1.ª Vara Criminal de Bangu, os policiais tiveram o auxílio de dois helicópteros e entraram em diversas casas. O objetivo era prender quatro criminosos da quadrilha de Robson André da Silva, o Robinho Pinga, chefe do tráfico no local e segundo na hierarquia do Terceiro Comando (TC). Ele conseguiu fugir, mas dois de seus gerentes, Márcio José Sabino Ferreira, o Batman, e Wellington Santos Barcelos, o Barbudo, estariam entre os mortos, de acordo com o chefe dePolícia, delegado Álvaro Lins. A identidade das dez vítimas não havia sido revelada pela perícia até o fim da tarde e a informação de que outras duas pessoas teriam sido mortas pela polícia não foi confirmada até o fechamento desta edição.MortesO secretário da Segurança Pública, coronel Josias Quintal, queesteve na favela da Coréia acompanhado de Lins, disse que ?quando há enfrentamento, o resultado não pode ser diferente?. ?Não é o que desejamos, porque houve mortes e eu gostaria que houvesse prisões, mas é o que se pode esperar quando há enfrentamento. A operação foi legal.? Muito nervosa, a moradora Sueli do Amaral Chagas, de 43 anos, acusou a polícia de invadir sua casa e assassinar dois parentes ? um genro, André Luiz Cassiano, de 22 anos, e um sobrinho, Tiago Ribeiro do Amaral, de 17 anos. Segundo ela, os dois não tinham envolvimento com traficantes. Ela conta que estava dormindo quando, pouco antes das 6 horas, quatro criminosos armados de fuzis a obrigaram a abrir a porta.Segundo o relato da moradora, os traficantes queriam se esconder da polícia ? um indicativo de que informações sobre a operação, iniciada cerca de 2h depois, podem ter vazado. Na casa de Sueli, que teve uma parede parcialmente destruída pela explosão de uma granada, foram mortas seis pessoas.?Eu pedi: ?Não mata os dois porque eles não são bandidos, são trabalhadores, mas não adiantou. A polícia só deixou as mulheres saírem e matou todo mundo??, disse ela, ainda vestida de camisola. Além de Sueli, foram liberadas sua filha, Daniele, de 19 anos, que perdeu o marido (Cassiano, que segundo ela trabalhava numa fábrica de lingüiça), e uma sobrinha que visitava a família,Joyce Nascimento Souza, de 20 anos. A moradora disse que vai abandonar a favela.?Nessa casa morreu um policial. Não há dúvida de que houve confronto. A operação foi legítima e legal?, disse o chefe de Polícia. O secretário da Segurança Pública, no entanto, vai mandar apurar a hipótese de ter havido morte de inocentes. ?Parece que a operação foi correta, tanto é que morrerampoliciais, mas vamos apurar.? Ele negou, porém, que tenha havido vazamento de informação.Outras quatro pessoas foram mortas em diferentes pontos: dois na linha de trem que separa as duas favelas, um num beco da favela da Coréia, com uma granada explodida em sua barriga, e o quarto na favela do Rebu. Quando os policiais chegaram à casa dos PMs Cristiano Cleic Higino e Diones Higino, que seriam irmãos, um deles teria rasgado o mandado judicial e atirado na perna de um dos inspetores que participavam do cerco. Os dois foram presos, mas depois negaram que tivessem envolvimento com criminosos. Lotado no Bope, Cristiano disse que não estava armado e informou que mora há 28 anos na favela da Coréia. ?Quem se envolve com o crime termina assim?, disse Quintal. Segundo ele, os dois PMs serão investigados e podem serindiciados por tentativa de homicídio. Na operação, foram apreendidos três fuzis, pistolas, granadas e munição de diversos calibres. O nome do cabo morto é Vítor Ricardo Domingues e o do inspetor baleado na cabeça é Richard de Oliveira. As duas favelas foram ocupadas pela PM. Como um dos mortos na ação policial seria gerente do tráfico do Morro do Estado, em Niterói, também dominado pelo Terceiro Comando, a operação teve reflexos em outro município: cinco lojas foramfechadas à tarde no Morro do Estado, por ordem de traficantes.

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