Na Rocinha, promotores ouvem denúncias de moradores contra PMs da UPP

Visita à comunidade foi marcada após depoimento do filho de um primo do pedreiro Amarildo que afirma ter sido torturado

Marcelo Gomes, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2013 | 10h37

RIO - Dois representantes do Ministério Público do Rio (MP-RJ) estiveram nessa quarta-feira, 28, na Favela da Rocinha, na zona sul do Rio, para ouvir denúncias de moradores sobre práticas de tortura, agressões e abusos supostamente cometidas por policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).

A visita à comunidade foi marcada após um adolescente de 17 anos, filho de um primo do pedreiro Amarildo de Souza, de 43 anos, contar em depoimento ao MP-RJ na semana passada ter sido torturado pelo menos três vezes por PMs. Amarildo está desaparecido desde 14 de julho, quando foi conduzido por PMs de sua casa até a sede da UPP.

O procurador Márcio Mothé, coordenador de Direitos Humanos do MP-RJ, e a promotora Marisa Paiva, que acompanhou o inquérito da 15ª DP (Gávea) que resultou na Operação Paz Armada, ouviram os depoimentos de oito pessoas.

Entre as testemunhas, há dois menores que também teriam sido agredidos por PMs da UPP em 13 de julho, véspera do sumiço de Amarildo. É o mesmo dia em que foi desencadeada a Paz Armada, que levou à prisão 33 suspeitos de ligação com o tráfico na Rocinha. Os dois menores foram citados no depoimento do adolescente de 17 anos, que disse que os três foram agredidos juntos pelos policiais. O rapaz disse ainda que, em abril deste ano, PMs colocaram um saco plástico em sua cabeça para asfixiá-lo, enquanto perguntavam pelo paradeiro do traficante Catatau.

Na mesma ocasião, o jovem disse que os policiais o molharam e lhe deram choques. Entre os agressores, estaria o soldado Douglas Roberto Vital Machado, conhecido como Cara de Macaco.

Vital e outros policiais do seu grupo também foram acusados na maioria dos outros depoimentos nessa quarta ao MP-RJ. Uma mulher acusou um PM de ter executado seu filho. Todos os depoimentos serão anexados ao procedimento criminal instaurado pela promotora Marisa Paiva para apurar as denúncias contra os PMs da UPP.

Marisa e Mothé também visitaram a casa onde Amarildo vivia com sua família, na Rua 2. Eles tiraram fotos do local, que atualmente está fechado. Amedrontados, a mulher e os seis filhos do pedreiro se mudaram para casa de parentes.

A Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) informou que Vital está afastado da UPP da Rocinha desde 17 de julho, por causa das investigações do sumiço de Amarildo.

Rodízio. A Polícia Militar vai realizar nos próximos dias um rodízio no comando de algumas das 33 UPPs inauguradas até agora na cidade. Conforme o Estado noticiou nessa quarta-feira de manhã em seu site, o comandante da UPP Rocinha, o major Edson Santos, será um dos transferidos. Ele é um dos investigados pelo sumiço de Amarildo. O oficial vem sofrendo críticas desde que disse em depoimento à Polícia Civil ter liberado o pedreiro da UPP na noite de 14 de julho, depois de confirmar que ele não era procurado por tráfico.

Entretanto, fontes da PM ouvidas pelo Estado disseram que o "rodízio" visa a resolver dois problemas de uma só vez. O primeiro é afastar Santos da UPP Rocinha, o que vem sendo exigido abertamente por parentes de Amarildo, representantes da sociedade civil e até membros do MP. O segundo é não criminalizar o oficial antes do término das investigações.

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