Na rua em que Virgínia morreu, morador paga R$ 10 por segurança

Nos últimos 10 dias, vizinhos viram moto de entregador de pizza ser roubada e ladrões atirarem em motorista

Pedro Dantas, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2015 | 00h00

Quem reside na Rua Bamboré e paga uma taxa de R$ 10 por mês para seguranças particulares e, por isso, se revoltou com o crime. "Alguns chegaram a dizer que o carro branco que atropelou Virgínia era dos policiais que são pagos para proteger a rua, mas ninguém tinha certeza de nada", afirmou um morador que pediu para não ser identificado. Até o Disque-Denúncia recebeu informações a respeito. O aposentado Antônio José Silva contou que a morte de Virgínia Santana de Almeida foi o ponto culminante de dez dias de violência na vizinhança. "Na segunda-feira da semana passada, um entregador teve a motocicleta roubada quando veio deixar uma pizza. Na quarta-feira, um vizinho ia ser roubado ao estacionar o carro e deu ré. Os assaltantes dispararam oito tiros no veículo e ainda bateram no motorista por ele ter reagido. E agora tem mais essa tragédia", enumerou. "Essa região está terrível." Anteontem à noite, policiais informaram que Virgínia foi vítima de um arrastão promovido por oito bandidos, que teve início no Cachambi, onde uma professora teve o carro roubado pelo bando, que se deslocava em carros e motos. Em seguida, os criminosos foram flagrados por policiais no Méier e perseguidos por sete ruas até Del Castilho, onde metade abandonou os carros roubados e fugiu. Quatro homens teriam participado do roubo que resultou na morte de Virgínia. Outros quatro roubaram um carro no Engenho Novo. Ontem, após assumir o caso, Amaral disse acreditar que o assalto não teve relação com o arrastão. DESPEDIDAS Relembrar as cenas da agonia de Virgínia chocou os vizinhos. "Foi horrível. Ela estava com o rosto desfigurado. Muita gente se afastou. Eu segurei a mão dela, porque pensei que gostaria de ter alguém ao meu lado, se estivesse no lugar dela", lembrou a dona de casa Iracema Moreira, que ficou sem dormir após ver a cena. "Muitos moradores desceram para ajudar, mas demoramos para reconhecer a Virgínia. Ela estava com o rosto muito desfigurado", completou a dona de casa Lena Mazzei, que conheceu a vizinha ao ser atendida por Virgínia na Maternidade Carmela Dutra. Descrita como uma pessoa reservada, a enfermeira morava com o filho adolescente de 16 anos e o marido Luiz Almeida. No site de relacionamentos Orkut, amigos mandaram mensagens de despedidas. Alguns lembravam de Vica, como era chamada, pelo bom humor e pela alegria. "Com certeza, você vai deixar muita saudade. Seu sorriso, sua alegria, seu alto astral, simplesmente a sua presença fazia toda a diferença naquela maternidade", escreveu uma colega de trabalho. "O almoço do dia 12 de setembro com certeza foi uma triste despedida e eu não sabia", desabafou outra amiga. Uma sobrinha escreveu: "Tia Vica, ficam as saudades ainda maiores. Obrigada por tudo! Manda um beijo para o meu pai da minha parte!". "Ela (Virgínia) era revoltada com a violência no Rio. Não se conformava com a história do João Hélio", disse a obstetra Sônia Miranda, de 60 anos, amiga da enfermeira havia 28 anos, durante o velório no Cemitério do Caju (zona portuária). Kardecista, Virgínia trabalhava no ambulatório pré-natal da Carmela Dutra. "Ela era uma grande enfermeira, que ajudou a salvar tantas vidas. E agora é mais um caso de criminalidade do Rio. Alguma coisa tem de ser feita", disse a presidente da Associação Brasileira de Enfermagem, Iraci França, chefe do setor na maternidade. "Ela não tinha inimigos. Era extremamente espiritualizada, de bem com a vida, brincalhona, uma pessoa maravilhosa", ressaltou Sônia. Virgínia completara 51 anos em 4 de setembro. Revoltada, outra amiga criticou o governo no enterro, no Cemitério do Caju. "É um descaso das autoridades, que têm carro blindado e seguranças. A gente, a ralé, paga os impostos." Alunos uniformizados do Centro Educacional da Lagoa do Norteshopping (CEL), colegas de sala do filho de Virgínia, João Luis, de 16 anos, foram ao enterro. Os parentes preferiram não falar com a imprensa.

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