Na tragédia, funcionários consolam famílias

Senhora passa o dia de mãos dadas com uma voluntária no Hotel Windsor, no Rio

Luciana Nunes Leal, O Estadao de S.Paulo

07 de junho de 2009 | 00h00

No ato ecumênico de quinta-feira, 26 funcionários da Air France não estavam na Igreja da Candelária apenas para homenagear colegas. A preocupação principal de tripulantes, atendentes de balcão e funcionários administrativos era amparar parentes das vítimas. Em períodos de normalidade, eles cumprem tarefas em aviões, aeroportos e escritórios da empresa. Mas são treinados para agir o mais rápido possível em casos de tragédia.Além de assistência jurídica, médica e psicológica obrigatória, como determinam convenções internacionais de aviação, as companhias aéreas investem no treinamento de funcionários voluntários para dar atenção mais próxima às famílias. O Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto (Lelu), da PUC de São Paulo, tem equipes para treinamento de funcionários de empresas aéreas. Entre os clientes estão a brasileira Gol, a inglesa British Airways, a alemã Lufthansa e a chilena Lan. Voluntários da Air France não param para falar com a imprensa, alegando que estão integralmente dedicados às vítimas. Durante o dia todo, presenciam situações de comoção, desespero, desamparo, culpa e insegurança. São comuns mudanças de humor nos parentes, que vão do descontrole à apatia, e a dependência extrema de terceiros para atividades básicas do dia a dia. No Hotel Windsor, onde estão hospedados parentes das vítimas do 447, uma senhora passa o dia de mãos dadas com uma voluntária, inclusive nas refeições. Há parentes que se aproximaram de determinado voluntário e preferem ter atenção apenas dele."Voluntários têm de aprender a diagnosticar necessidades das famílias, tanto no apoio prático como no psicológico. Muitas vezes, elas estão fora de casa, esperando uma resposta que não vem e, quando vem, não é a que querem ouvir", diz a professora da PUC Maria Helena Pereira Franco, fundadora do Lelu, onde se formaram os primeiros profissionais brasileiros especializados no tratamento do luto. O laboratório montou o plano de emergência da Gol, atuou no acidente com o avião da companhia em 2006 e foi chamado para auxiliar no atendimento a parentes de vítimas do acidente da TAM, em julho de 2007, em Congonhas. Maria Helena destaca que voluntários precisam de conhecimento técnico para o trato com famílias traumatizadas pela morte inesperada e trágica, a falta de notícias objetivas, a ausência de corpos, a lentidão das investigações sobre as causas do acidente. "É muito importante ter habilidade para comunicação e estar preparado para as alterações de humor (dos parentes). Na emergência, voluntários têm de estar bem de saúde, alimentar-se bem. Também digo sempre que precisam descansar. Não adianta dizer ?ah, quero ficar mais um pouquinho?. Respondo ?descanse, pois vou precisar de você amanhã?."Segundo Maria Helena, algumas companhias fazem simulações de atuação de voluntários em acidentes, inclusive com reprodução de cenário de desastre. No caso da Gol, o treinamento começou em 2003 e tem reciclagens periódicas. A TAM informou que tem 850 voluntários, entre funcionários no Brasil e no exterior. O grupo existe desde 2002. A Air France tem 4 mil. No Rio estão, além dos 26, sete médicos e sete psicólogos, entre franceses e brasileiros.Diretora do 4 Estações Instituto de Psicologia, Valéria Tinoco Mendes diz que outro ponto importante é evitar que parentes, já tão vulneráveis, fiquem expostos a novos riscos. "A pessoa pode ficar muito exposta à mídia, a família pode se desentender." No caso da Air France, já houve desentendimentos de famílias com o irmão de uma vítima, acusado de divulgar informações erradas e fotos de reuniões reservadas. Nesses casos, voluntários tentam agir como mediadores.

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