Mirtes Souza/arquivo pessoal
Mirtes Souza/arquivo pessoal

'Não achei que seria essa tragédia', diz Sarí sobre deixar Miguel no elevador

À TV Globo, mulher, que foi indiciada por abandono de incapaz, disse que esperava que o garoto voltasse para o andar do apartamento. Miguel morreu ao cair de uma altura de 35 metros

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2020 | 23h31

A primeira-dama da cidade de Tamandaré, em Pernambuco, Sarí Corte Real, disse não ter previsto a gravidade de ter deixado o menino Miguel, de 5 anos, sozinho no elevador do prédio onde mora, no Recife. "Não achei que seria essa tragédia. Eu acreditei que ele voltaria para o andar, que ele voltaria para o quinto andar", disse a mulher em entrevista à TV Globo divulgada neste domingo, 5.

Miguel morreu após cair do nono andar, a uma altura de 35 metros. A Polícia Civil de Pernambuco indiciou Sarí por abandono de incapaz, crime previsto no artigo 133 do Código Penal e caracterizado pelo ato de "abandonar pessoa que está sob seu cuidado, guarda, vigilância ou autoridade, e, por qualquer motivo, incapaz de defender-se dos riscos resultantes do abandono". A pena prevista é de quatro a doze anos em caso de condenação.

Ao Fantástico, Sarí disse que Miguel abriu a porta sozinho para ir atrás da mãe, que passeava com o cachorro da família da patroa. "Ele corre para o elevador, chama o elevador. Em um instante ele chega. Aí, quando abre a porta, eu digo: Miguel, você não vai descer. Volta para casa, espera sua mãe", explicou. A mulher negou que tenha apertado o botão que levou ao deslocamento do elevador.

“Independentemente da ação da conduta de pressionar ou não a tecla da cobertura, o que nós entendemos de relevante, já no ato de delito dela, foi o que nos manteve, ainda assim, firmes no sentido que aquela ação omissiva, aquela conduta omissiva, de permitir o fechamento da porta, aquilo sim tem valor jurídico penal bastante relevante inclusive para responsabilização penal”, explicou à TV Globo o delegado do caso.

Questionada se não havia se preocupado com o que podia acontecer com o garoto, Sarí disse ter ligado para a mãe dele, Mirtes Souza. "Na mesma hora eu liguei para Mirtes. Mas, ao mesmo tempo, eu estava tentado acalmar a minha filha, que também estava desesperada com a situação. Eu me via ali, naquela situação, com aquela movimentação: minha filha, ele. Eu me senti ali, sem conseguir falar com Mirtes, com a minha filha. Foi tudo muito rápido. Foi tudo muito rápido", disse ao programa.

Ela disse ter feito tudo que podia ao ser questionada se sentia culpa ou arrependimento. "Eu sinto que eu fiz tudo que eu podia e, se eu pudesse voltar no tempo, eu voltava. Se eu soubesse que tudo isso ia acontecer, eu voltava e ainda tentava fazer mais do que eu fiz naquela hora", afirmou. 

O Estadão contou a história de Miguel. Para Mirtes, o fato de a mulher estar livre – “mesmo tendo largado o menino à própria sorte” – se explica não pelo episódio, em si, mas pelos sobrenomes que o episódio envolve. Agora ex-patroa, Sarí é a primeira-dama de Tamandaré e uma Corte Real, família influente na política de Pernambuco. Por sua vez, Miguel Otávio, apesar do nome pensado para virar doutor, era um Silva.

“Ela confiava os filhos dela a mim de olhos fechados. Na primeira vez que ficou responsável por Miguel, entregou meu filho todo quebrado por dentro… Se fosse o contrário, ela estaria muito revoltada, ia fazer com que eu pagasse: eu estaria presa e apanhando todo dia na cadeia”, afirma a mãe. “Ela acabou com a minha vida, meus planos, meu futuro.”

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