‘Não achou o outro, pega ele mesmo’, disse assassino

Jackson dos Santos foi assassinado a tiros aos 22 anos na rua onde morava, na cidade com maior número de homicídios por habitante no País

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2016 | 19h00

Jackson dos Santos foi assassinado a tiros aos 22 anos na rua onde morava, no bairro Diamante, na sexta-feira da Semana Santa de 2014. Operário da construção civil em Camaçari, município vizinho, não tinha relação com o tráfico de drogas nem com outros crimes, segundo a família. Sua morte ainda não foi esclarecida pela polícia, que diz continuar investigando o caso.

Um dos seus sete irmãos é o fator que ajuda a explicar, mas não a esclarecer, o homicídio. Mais velho, Jean sempre foi metido com o crime, com passagens por roubo e tráfico, conta a mãe, a dona de casa Sueli Maria dos Santos, de 44 anos. Chegou a cumprir pena na cadeia, saiu e retomou as práticas ilegais. Ela acredita que Jackson, “que nunca tinha sido preso”, tenha sido assassinado no lugar de Jean.

A vítima havia saído da casa da mãe, onde a família estava reunida depois de ter entregue ovos de Páscoa para os irmãos mais novos. Com menos de 30 minutos, sua namorada voltou sozinha e desesperada. Dois homens haviam matado Jackson. Chegaram a perguntar pelo irmão, mas não o encontraram. “Não achou, pega ele mesmo que o outro tá difícil”, é a versão do diálogo que ficou na cabeça de Sueli, a partir do relato da testemunha. 

O paradeiro atual de Jean é desconhecido. Para Sueli, a vida nunca mais foi a mesma. Ela continua lembrando da Sexta-feira Santa e agora toma remédios para dormir. O que aumenta a tormenta é a falta de investigação. “Já me falaram que foi arquivado.”

Sem dar detalhes, a polícia reafirma que a apuração não foi encerrada.

Mais a apurar. A polícia também não encerrou outros 30 inquéritos abertos em 2014; em alguns, os trabalhos nem sequer começaram. A pedido da promotoria, uma das delegacias da cidade enviou as investigações em andamento para controle do Ministério Público: em alguns registros nem sequer há laudo de necropsia e há casos em que ninguém foi ouvido. A promotoria ainda aguarda inquéritos do outro DP da cidade, mas antecipa o diagnóstico. “O número de homicídios com autoria esclarecida tem ficado abaixo do desejável, o que, infelizmente, tem sido mais comum do que o esperado em todo o País”, diz a promotora criminal da cidade, Luiza Amoedo.

No posto há quatro meses, Luiza atribui a ineficiência da polícia a três fatores. “O baixo desempenho na elucidação de homicídios deve-se, principalmente, ao receio que as pessoas têm em contribuir com a investigação, à falta de recursos tecnológicos que supram a prova testemunhal e à carência de material e de pessoal das polícias locais.” Além dos dois DPs, a cidade tem 120 homens da Polícia Militar.

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