FELIPE RAU/ESTADAO
FELIPE RAU/ESTADAO

'O fato é que não dá para construir vias para todo mundo', diz especialista em transporte

Professor da USP aborda pedágio urbano, subsídio ao transporte público e novos congestionamentos

Entrevista com

Claudio Barbieri da Cunha, professor da Poli-USP

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2022 | 05h00

A adoção do trabalho híbrido pode até ter tirado veículos de circulação no horário de pico, mas gerou um novo tipo de congestionamento: o congestionamento do meio-fio, com veículos de entrega disputando espaço com carros por aplicativos, paradas de ônibus e bicicletas. Gerir o transporte urbano nesta volta à normalidade exige, portanto, solucionar os novos problemas e dar conta dos antigos, como a questão do subsídio ao transporte público e a discussão sobre o pedágio urbano. Confira essa e outras análises em entrevista com Claudio Barbieri da Cunha, professor titular e vice-chefe do Departamento de Engenharia de Transportes da Poli-USP, que participou do painel Como a Pandemia Mudou o Transporte, durante o Summit Mobilidade 2022.

Qual o impacto do aumento do trabalho híbrido no sistema de transporte?

Acho que a gente ainda vive uma situação transitória, mas o modo híbrido tem o benefício de poder evitar o horário de pico. Sistemas de transporte, de carga ou de passageiros, exigem investimentos elevados porque precisam atender à demanda em períodos concentrados. Isso é muito perverso. Com as pessoas trabalhando em modo híbrido, talvez a gente tenha uma demanda menos concentrada, e talvez se exija menos do sistema de transporte. Além disso, são as classes socioeconômicas mais elevadas que mais podem trabalhar no formato híbrido. Essa mesma população tende a ser mais resistente a usar transporte público. Por isso, no momento em que deixam de se deslocar para ir ao trabalho de carro particular, isso significa menos congestionamento, menos poluição, ônibus podendo trafegar em uma velocidade maior.

Mas, mesmo assim, já temos congestionamentos em níveis pré-pandemia…

É óbvio que o carro é mais confortável – pode estar chovendo, nevando, eu saio de um ambiente abrigado e entro em outro ambiente abrigado. Não me exponho à rua, não preciso esperar. Mas o fato é que não há espaço para todo mundo, não dá para construir vias para todo mundo.

Desincentivar o transporte individual tem sido sempre uma questão polêmica.

É um assunto delicado porque abre discussão sobre o quanto pagamos de imposto, o que extrapola a questão da mobilidade. Mas o fato é que, para coibir congestionamentos, você tem duas medidas: uma é proibir, como é o caso dos rodízios; e outra é fazer a gestão de uso, isto é, quem precisa usar vai pagar para usar. Pessoalmente, sou partidário do pagamento pelo uso. Em São Paulo, a gente já poderia ter pensado em uma experiência-piloto, talvez numa área mais central onde a oferta de transporte público é muito grande. Poderia ver o que aconteceria se implantasse uma tarifa de congestionamento numa área de três, quatro, cinco quilômetros do centro histórico. Para circular na Paulista, por exemplo, teria de pagar determinado valor.

E se, de um lado, há a possível cobrança pelo uso do transporte individual, de outro, há a discussão sobre a necessidade dos subsídios ao transporte público.

Numa analogia, subsídio ao transporte urbano é como a vacina da covid. Não cobramos pela vacina porque entendemos que uma política pública de saúde na qual as pessoas sejam vacinadas traz um benefício melhor para a sociedade. Se eu não tiver uma política pública de apoio para manter uma tarifa barata, a maioria das pessoas vai migrar para o carro. Será que isso é o melhor para a sociedade? A gente sabe que não. Teria de se investir ainda mais no sistema viário, as pessoas passariam mais tempo no trânsito, além dos problemas de saúde pública decorrentes da poluição. Já vemos no transporte por aplicativos o que ocorre quando o preço sobe muito ou quando a margem dos operadores diminui. Muitas pessoas têm se queixado de que está difícil encontrar (carros disponíveis), elas têm de esperar muito. Queremos isso para o transporte público? Se a resposta para essa pergunta for um “não”, não há alternativa exceto o subsídio. Infelizmente, o sistema de transporte tem custos pouco sensíveis à quantidade de passageiros, mas receitas muito sensíveis à quantidade de passageiros.

Em São Paulo, o modelo de financiamento inclui, em parte, o subsídio da Prefeitura. Qual sua avaliação?

Vejo duas questões. Uma é filosófica: aumentou o preço do diesel; então, vou aumentar o preço da tarifa ou diminuir a quantidade de ônibus circulando? Se a gente não quiser diminuir a quantidade de ônibus ou que eles andem ainda mais lotados, alguma coisa precisa ser feita. Se aumentar a tarifa é ruim para a cidade, esse dinheiro precisa vir de algum lugar. A outra questão é a da contabilidade: esse subsídio está, de fato, permitindo um bom sistema de transporte? À medida que a tecnologia avança, temos mais condições de fazer essa verificação, de olhar se os ônibus estão cumprindo os horários, se estão sendo feitas todas as viagens. Com sistemas de rastreamento e dados da bilhetagem do passageiro, vamos poder avaliar melhor se esses valores estão sendo bem aplicados. São valores vultosos, mas, se você imaginar qual é o impacto de um passageiro que passa a andar de carro – mais poluição, mais congestionamento –, vai ver que não são tão vultosos.

Existe também a discussão sobre o uso misto do solo, o que poderia diminuir necessidades de deslocamento.

Não é simples mudar o uso de ocupação do solo. No mundo ideal, a gente não precisaria se transportar – viveria em um prédio no qual mora num andar, trabalha em outro e, no térreo, tem a estrutura de serviços. Há discussões e as pessoas não conseguem convergir sobre isso. Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro têm bairros eminentemente residenciais. As pessoas têm imóveis maiores, boa qualidade de vida, mas precisam de carro para comprar um pão na padaria. Como você vai mudar isso? É preciso políticas públicas para estimular usos mistos.

E sem contar que a pandemia gerou outros tipos de congestionamento, não é?

Exatamente. O mais novo ponto de congestionamento é o meio-fio. O meio-fio é o lugar onde você embarca no ônibus, anda de bicicleta, veículos de aplicativos estacionam, veículos param para fazer entregas. E esse último é especialmente complicado. Porque, antes, a pessoa comprava tudo de uma vez no mês. Agora, pede um item na segunda-feira, lembra de outro na terça, outro na quarta, e assim vai.

E como lidar com isso?

Há ideias experimentadas em diferentes locais do mundo, como as complete street, que são as ruas completas. Você redesenha a rua para carro de aplicativo, caminhão, ciclovia protegida. Mas isso tem de ser associado a mudanças, principalmente em relação às entregas. Não dá para todo mundo pedir tudo em casa a todo momento. Além do mais, muita gente voltou a trabalhar presencial, e não está em casa quando chega a encomenda, o que gera a reentrega. Seria melhor se houvesse um incentivo para as pessoas usarem algum tipo de locker, que pudesse ser acessado a qualquer hora e que ficasse a, no máximo, 800 metros da residência. Estudos mostram que isso reduziria a circulação de veículos de entrega e as emissões em quase 50%.

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