'Não é inteligente esse saudosismo do Lula'

Carvalho, que também foi chefe de gabinete do ex-presidente, diz que PT tem de dirigir energia para apoiar e defender Dilma

Vera rosa, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2011 | 00h00

ENTREVISTA

Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência

Fundador do PT, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, diz que o partido não deve cultivar "saudosismo" do ex-presidente Lula, mas, sim, canalizar as energias para apoiar o governo de Dilma Rousseff. Ele admite que a administração de Dilma enfrenta dificuldades, mas crê que, aos poucos, os rumores pela volta de Lula perderão força. "Não é inteligente da nossa parte fazer essa política de saudosismo do Lula", afirma Carvalho, que foi chefe de gabinete do ex-presidente por oito anos.

Como o sr. vê, nos bastidores do PT, um movimento que pede a volta do ex-presidente Lula em 2014?

Considero isso muito mais uma análise precipitada, depois dos problemas que a presidente Dilma enfrentou. Temos muita dificuldade, inclusive na relação com nossa base, mas não tenho dúvida de que, quando 2014 chegar, a candidata será Dilma. É natural, pela história do Lula, que as pessoas se manifestem, mas esses comentários vão diminuir à medida que o governo Dilma for mostrando sucesso. Não é inteligente da nossa parte fazer essa política de saudosismo do Lula. Temos de dirigir nossa energia para apoiar e defender o governo Dilma.

O sr. esteve hoje (ontem) conversando com a bancada do PT na Câmara. O que disse para acalmá-los? Há quem veja muitas diferenças entre Lula e Dilma...

Posso assegurar que não existem divergências. E tem mais: dizer que Dilma não gosta de política é completamente equivocado. Nossos deputados revelaram muita mágoa por não ser atendidos, mas vamos ver como resolver isso. A presidente Dilma sabe que o PT é uma bancada com a qual pode contar.

A resolução do PT, a ser aprovada pelo 4.º Congresso, pede que o ritmo da queda dos juros seja mais ousado. A oposição, por sua vez, diz que Dilma pressionou o Banco Central e, por isso, a instituição perdeu a autonomia. O corte dos juros não surpreendeu o governo, não é?

A quem interessa essas críticas? Quando o BC elevou os juros, nunca se criticou a autonomia do BC. Agora, quando o Comitê de Política Monetária resolve baixar, vira essa grita geral? As pessoas deveriam aplaudir.

Um grupo no PT fará moção de desagravo ao ex-ministro José Dirceu, chamado pela revista Veja de chefe de uma conspiração contra o governo Dilma. O sr. apoia essa moção?

O Zé Dirceu tem extraordinária audiência no PT e a reportagem foi feita com quebra de padrões jornalísticos e violação da intimidade. A Veja passou do ponto. Estranho seria se não déssemos razão a ele.

O sr. disse ao Estado que prévias no PT para a eleição em São Paulo seriam um desastre. Mas, ao que tudo indica, não haverá grande mudança no sistema de prévias na reforma do estatuto.

Eu chamei a atenção para que interesses individuais não se sobreponham aos coletivos, mas jamais tive a intenção de questionar uma prática democrática. Agora, antes das prévias vale a pena a tentativa de entendimento, até para que elas não se tornem um instrumento de dilaceração interna do PT, servindo de munição para adversários.

A proposta para que os novos filiados do PT passem por uma sessão de "batismo", conhecendo o programa do partido, é considerada burocrática pela maioria. Qual é a sua avaliação?

Eu acho que o PT deveria ter um processo mais rigoroso de filiação. Enxergo na falta de qualificação boa parte dos problemas que temos. É uma pena que essa emenda, propondo mais informações ao filiado, não tenha recebido tanto apoio.

Como o PT pretende se sustentar financeiramente e acabar com o estigma do mensalão?

Não aceito a pecha de mensaleiro para o PT. Ao longo de nossos 30 anos, temos uma contribuição obrigatória dos filiados e também de quadros no Executivo, que ajudam o autofinanciamento do partido e sua sobrevivência. O problema são as campanhas eleitorais, cada vez mais caras. Para elas não há outra receita que não seja a reforma política. Não tenho mais a ilusão de que o PT vá amealhar recursos coletivos para campanhas. Não dá sustentar esses custos. A reforma política, com financiamento público, são essenciais para o futuro do PT.

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