Instituto Modus Vivendi
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Anchieta, no Espírito Santo, enterrará mortos pela gripe espanhola

Arqueólogos e restauradores encontraram no solo do Santuário de São José de Anchieta, no Espírito Santo, ossos de 80 fiéis que morreram de gripe espanhola entre 1918 e 1920

Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2021 | 10h00

BRASÍLIA - A pequena Anchieta, cidade no litoral Sul do Espírito Santo, se prepara para enterrar seus mortos da pandemia. Neste caso, porém, não se trata da covid-19, que já matou mais de 250 mil brasileiros, mas dos corpos de quase uma centena de pessoas atingidas pela gripe espanhola, doença que, no início do século passado, deixou um rastro de 50 milhões de mortes no mundo, sendo 35 mil no País.

Ao revirar o solo do Santuário de São José de Anchieta, que leva o nome do jesuíta canonizado em 2014 pelo Papa Francisco, uma construção dos primeiros tempos de colonização portuguesa, arqueólogos e restauradores encontraram conjuntos de ossos de 80 fiéis inumados entre os anos 1918 e 1920. Foi nesse período que a gripe espanhola assolou o Brasil. 

Na análise dos pesquisadores, a posição em que os cadáveres foram encontrados revela o terror vivido pelos moradores da antiga vila de Reritiba. Em decorrência do alto número de mortes num curto período de tempo, o subsolo da igreja passou a ser usado como local de empilhamento dos corpos da pandemia. As primeiras ossadas foram encontradas a um metro abaixo do piso da construção. Os esqueletos estavam triturados e amontoados, o que, segundo os arqueólogos, revela uma situação de enterros improvisados em meio à pandemia.

Os restos das sepulturas, os resíduos sólidos da exumação dos corpos, os resquícios de cal misturados com a terra, a decomposição dos cadáveres e os inúmeros fragmentos humanos esmagados são efeitos da prática de compactação do solo para abertura de novas covas. É o que explica o laudo de exumação dos ossos obtido pelo Estadão. 

O documento assinado pelo arqueólogo Ricardo Augusto Silva Nogueira revela uma história bem viva. “Encontramos situações históricas semelhantes aos dias atuais, a exemplo da pandemia global, com milhares de vítimas e com os conhecidos relatos sobre cemitérios lotados, destaca o laudo. “De forma clara, essa relação tem sua associação com a gripe espanhola que assolou o Estado e o País entre os anos de 1918 a 1920, vitimando muitos capixabas”, ressalta. “Essa prática foi visualizada em uma intervenção no solo de pouco mais de 2,5m x 1,5m de comprimento e 70cm de profundidade que evidenciou esqueletos de vários indivíduos sobrepostos, denotando, desta forma, profanação dos túmulos para a realização de novos enterramentos.”

O laudo revela que os corpos foram enterrados sem lápides, urnas funerárias ou registros, indicando serem de pessoas “muito humildes da comunidade”. No período da gripe espanhola, o local do santuário não estava sob a gestão dos jesuítas, que foram expulsos do Brasil em 1759, pelo Marquês de Pombal, e só voltaram a administrar o local em 1928. Isso explicaria, segundo os pesquisadores, a ausência de registros oficiais da igreja e a falta dos nomes das pessoas que foram enterradas. 

Os procedimentos de escavação na igreja e seu entorno seguiram a metodologia da arqueologia forense. Nos depósitos dos cadáveres, os arqueólogos encontraram vestígios do modo de vida da época, incluindo botões de plástico, abotoaduras, restos de roupas e cacos de vidro, dentre outras peças. “Mediante testemunhos orais na cidade sobre a gripe espanhola e a constatação do uso contínuo do cemitério inflacionado pela falta de espaço, a acumulação de indivíduos em camadas reduzidas do pátio (da igreja) provocam nossa imaginação sobre com a pandemia poderia ter afetado a comunidade local”, pontua no Nogueira em outro trecho do laudo. 

'Pestes da terra'

O Estadão teve acesso ainda a documentos que mostram detalhes da descoberta inédita. Um dos textos ressalta que o pátio interno do santuário serviu como cemitério da cidade até o início do século XX, sendo desativado após a pandemia da gripe espanhola. Em anotações da época, o padre Joaquim Rocha, que passou pela região de Anchieta entre anos de 1928 a 1933, relatou a realização de sepultamentos desordenados na vila, em anos anteriores, relacionados a mortes “por pestes da terra”.

Outra informação anexada ao processo de exumação destaca que a maioria dos atestados de óbito no Espírito Santo, na época, registrava como causas mortis gripes, pneumonias e outras doenças respiratórias. O médico Carlos Pinto Seidl, diretor-geral da Saúde Pública do Brasil em 1918, tratava em outros documentos da impossibilidade de controle da gripe viral e do cenário caótico na capital, Vitória, que teria ficado “totalmente parada” naquele período. A gripe levou ao interrupção das atividades em colégios, quartéis e fábricas, além da falta de alimentos, remédios, leitos e até caixões.

O santuário jesuítico no Espírito Santo passa por um processo de restauração, o que possibilitou o encontro dos restos mortais. Ao iniciar as escavações na Igreja de Nossa Senhora da Assunção, construída por Anchieta, os arqueólogos encontraram as primeiras ossadas. Outros corpos foram encontrados no pátio de acesso à cela onde o padre morreu. Os esqueletos encontrados foram guardados em urnas apropriadas para, posteriormente, serem enterrados no mesmo local, num ritual católico que contará com uma missa. Ainda não há data definida para o enterro.

Santo

O espanhol das Ilhas Canárias José de Anchieta (1534-1597) foi pioneiro na catequização em terras brasileiras e ajudou a fundar a cidade de São Paulo, vindo posteriormente a se estabelecer no litoral Sul do Espírito Santo. Ele fazia a pé viagens até a Bahia, visitando os colégios e igrejas da ordem. A região do santuário, que é banhada pelo mar e cercada por montanhas de vegetação ainda intacta, foi escolhida pelo missionário para viver os últimos anos de sua vida, onde faleceu.

Num dos processos de reconhecimento mais longos da Igreja Católica, o padre foi beatificado pelo Papa João Paulo II em 1980 e canonizado só em 2014 por Francisco, tornando-se o terceiro santo brasileiro. O corpo dele foi enterrado no altar-mor da então Igreja de São Tiago, hoje Palácio Anchieta, na capital Vitória, hoje a 88 quilômetros de carro de Anchieta. Lá ficou por seis anos. Depois, parte dos seus ossos foi levada para Bahia, São Paulo, Portugal e Roma. Um fragmento da tíbia se encontra no santuário da cidade que hoje leva seu nome.

A região onde hoje está o santuário desempenhou importante papel como centro de catequização de índios e do desenvolvimento religioso e cultural de diferentes etnias. No local, índios tupiniquins tiveram os primeiros contatos com os missionários jesuítas em 1579, por decisão do padre José de Anchieta, o responsável máximo pela Companhia de Jesus no Brasil, criada em Portugal para catequizar os indígenas brasileiros.

Restauro

Iniciados em maio de 2018, os trabalhos de restauração do santuário contam com o acompanhamento de profissionais de arqueologia e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). “O orgulho de realizar um bom trabalho de arqueologia no espaço que hoje se encontra restaurado e revitalizado contrasta com a tristeza sentida quando revelamos este cenário de sofrimento e reclusão tão parecidos com nossa realidade histórica ocasionada por uma nova pandemia global”, afirma, ao Estadão, o arqueólogo responsável pelas pesquisas.

O restauro encontra-se em fase final das obras, com conclusão prevista para 2021. As ações da intervenção contemplam a Igreja de Nossa Senhora da Assunção, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1943, além de áreas da antiga residência jesuíta. 

A recuperação conta com obras de acessibilidade, melhorias museológicas e museográficas, além da construção de uma loja e um café para atender aos fiéis e peregrinos. Receberá ainda montagem da sala de documentação e estudos, além de paisagismo cultural na área do entorno do Santuário. O acervo ainda contará com cartas, mapas e outras documentações que datam de 1534 a 1997. “O monumento tem significado especial por ser um templo importante de difusão da fé católica e concentrar a valiosa história do único homem que viveu e morreu em solo capixaba reconhecido como Santo da Igreja Católica”, afirma Erika Kunkel Varejão.

Presidente do Instituto Modus Vivendi, responsável pelo restauro, ela destaca que não só os conjuntos de ossos, mas outras descobertas arqueológicas são importantes por trazer à tona “momentos desconhecidos e relevantes da história do País. Ela afirma que o grupo que trabalha na restauração tem documentado e registrado cada nova descoberta. “O santuário se traduziu em um avançado centro interpretativo religioso, que vai narrar para as gerações futuras como era a vida do povo daquela época, o uso religioso, civil, público e particular que faziam dele, bem como dos que habitavam em seu entorno. Um registro documental que fica para as gerações futuras sobre a sociedade que ali vivia.”

Orçado em R$ 10 milhões, o projeto de restauro é bancado pela Vale e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES). O deputado federal Evair de Melo (PP), que tem acompanhado o processo de restauro, disse que a população capixaba agora espera que o Papa Francisco visite e abençoe o santuário dedicado ao primeiro santo por ele canonizado. “A recuperação do santuário é o caminho para mantermos vivo o legado deixado por Anchieta em terras brasileiras e capixabas.  Olhando além da história, fortaleceremos com essa recuperação o turismo histórico e religioso em terras capixabas”, diz Evair.

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