JF DIORIO / ESTADÃO
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'Não há estudo que diga qual dia vai acontecer', diz Defesa Civil sobre barragem

Queda de talude pode ser o gatilho para a ruptura de barreira em Barão de Cocais

Felipe Resk, Enviado especial

24 de maio de 2019 | 20h02

BARÃO DE COCAIS - Com rompimento dado como certo, a parede de contenção (talude) do complexo minerário de Gongo Soco, da Vale, em Barão de Cocais (MG), aumentou a movimentação de 7 centímetros para, em média, 12 centímetros na manhã desta sexta-feira, 24, segundo a Defesa Civil de Minas. No ponto mais crítico, ao pé do paredão, o deslocamento chegou a 16 centímetros.

Nesta semana, o governo de Minas chegou a informar que domingo, 26, seria a data-limite. "O talude pode ceder amanhã, mas também pode não ceder, pode passar uma semana", afirmou nesta sexta o coronel Flávio Godinho, coordenador adjunto da Defesa Civil. "Não há estudo técnico que diga qual dia que vai acontecer, o que existe é uma projeção."

O queda do talude pode ser o gatilho para a ruptura da barragem Sul Superior, que fica distante cerca de 1,5 quilômetro. Segundo auditoria, esse risco seria entre 10% e 15%.

Em Barão de Cocais, o plano de emergência foi elaborado com a projeção de que 73% dos rejeitos seriam despejados, em caso de desmoronamento. Nessa hipótese, a lama soterraria em 5 minutos quatro distritos, que foram evacuados em fevereiro.

Após 1 hora e 12 minutos, a lama chegaria à primeira residência urbana de Barão de Cocais. Em 3 horas, afetaria a cidade vizinha de Santa Bárbara. Em 8 horas, a cidade de São Gonçalo do Rio Abaixo.

Cerca de 10 mil pessoas podem ser afetadas, de acordo com o último dam break, divulgado nesta semana. Godinho afirma que todos os moradores foram treinados e não correriam risco. "A população tem de acreditar no trabalho feito", diz. "O plano já levou em conta o pior cenário possível."

Nos próximos dias, a Defesa Civil também deve realizar simulados em uma comunidade de Belo Horizonte e em Itabira. Nesta última, está prevista participação  de 12 mil pessoas.

Reservatório deve comportar material, diz representante da ANM

O gerente substituto da Agência Nacional de Mineração em Belo Horizonte, Guilherme Santana Lopes Gomes, diz que, caso o talude venha abaixo, é mais provável que não haja rompimento da barragem. "Temos equipes aqui analisando cada detalhe."

Segundo ele, o volume do talude, que está escorregando, chega a 10 milhões de metros cúbicos. "O reservatório consegue comportar esse material", diz. "A água não deve passar por cima - a gente fala 'galgar' - e o talude deve ficar confinado", afirma. "Nossa esperança é que esse talude continue descendo de forma suave para dentro da cava, depois a gente vê o que faz com o problema ambiental futuro."

Segundo Gomes, o problema poderia ter sido evitado se a Vale tivesse feito um desmonte controlado antes. "Minha posição pessoal como engenheiro de minas - a ANM não soltou uma nota sobre isso -, é que a Vale perdeu perdeu o timing", diz. "Se ela for tentar fazer agora, pode romper o talude."

Embora ambas estejam na mira da lama de rejeitos, as cidades vizinhas de Barão de Cocais e de Santa Bárbara vivem momentos diferentes. Enquanto na primeira as pessoas demonstram medo, o comércio perdeu movimento, agências bancárias fecharam as portas e até o fórum teve de suspender expediente, na segunda os moradores se mostram despreocupados.

"Penso que talvez seja alarme falso", diz o pedreiro Fernando Correia, de 61 anos, morador de uma área com risco de inundação em Santa Bárbara. Ele, entretanto, preferiu nem separar roupa ou documento, caso tenha de deixar a casa. "Não fico preocupado. Se tiver de acontecer, vai acontecer. Aqui dá tempo de sair com tudo que é direito."

Os hotéis da cidade também registraram aumento de reservas nesta semana - a maioria feita por comerciantes que antes se hospedavam em Barão de Cocais, segundo relatam funcionários. No centro, também se vê movimentação de clientes por lojas e restaurantes.

Dona de um bar em Barão de Cocais, Licia Brito, de 50 anos, retira da bolsa um calhamaço de contas para provar que a situação ali é inversa. "Desde que essa história de barragem começou, se eu estiver faturando R$ 1,5 mil por mês é muito", diz. "Só de aluguel, juntando a minha casa e o ponto, eu pago R$ 1,4 mil. Agora me diz: como vou fazer para viver?"

Com agências do Correios e de bancos fechadas na cidades, os moradores também têm de se deslocar até Santa Bárbara, separadas 15 quilômetros da Estrada Real. "Eu levava 5 minutos para chegar ao banco e resolver meus problemas", afirma o pedreiro Carlos Alberto de Souza, de 44 anos. "É um transtorno muito grande para todo mundo."

 

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