''Não há interesse em museus só locais''

Estado ainda reforma instituições, mas acelera a municipalização

Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

08 Agosto 2009 | 00h00

Se depender da vontade da atual gestão, a partir de 2011 nenhum museu em São Paulo será administrado pela Secretaria de Estado da Cultura. A meta é que todos os 67 museus públicos estaduais atrelados à pasta estejam sob outro comando. Os 18 principais - 14 na capital, incluindo a Pinacoteca do Estado e o Museu da Língua Portuguesa - já são geridos por organizações sociais. Os 49 restantes - todos de fora da capital - passam por um processo de municipalização que deve ser concluído até o fim do próximo ano. "Não há interesse do Estado em manter museus que têm relevância só local", afirma o secretário de Cultura, João Sayad. A entrega do Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes, em Piracicaba, anteontem, mais do que devolver à população (após um ano e meio de obras) a instituição restaurada e reformada - ao custo de R$ 747,2 mil -, simboliza o primeiro passo do processo de municipalização. O museu deixa de ser estadual, embora haja um compromisso de acompanhamento nas próximas etapas. Nesse processo terão o mesmo destino o Museu Histórico e Pedagógico Conselheiro Rodrigues Alves, de Guaratinguetá, e a Casa de Cultura Paulo Setúbal, de Tatuí, que serão entregues após reformas similares - e orçadas praticamente nos mesmos valores. Essa melhoria, entretanto, não acontecerá nos demais museus em processo de municipalização. "Não existe plano de reformar mais nenhum", afirma o secretário. "Nosso plano é municipalizar. Não há recurso para, antes, reformar todos os museus." Não é a primeira vez que se fala em municipalizar os museus estaduais paulistas. Criados a partir de 1956 - com o objetivo de "preservar a história da cidade (onde se localiza) e do patrono (nome da personalidade que dá nome à instituição)" -, os acervos dos museus começaram a ser repassados aos municípios em 1998, a partir de um decreto do governador Mário Covas. "A função do Estado é definir a política pública, a vocação e firmar parcerias", diz a coordenadora da Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico da Secretaria de Estado da Cultura, Claudinéli Moreira Ramos. "O processo vem de uma visão de que a função do Estado não é de executar as atividades culturais, mas garantir condições para que sejam executadas." A ideia da secretaria, agora, é rever, regularizar e concluir todos os processos em andamento - nem todos os municípios, porém, concordam com a atual política e dizem que o governo "lava as mãos" (mais informações na página C4). RESSALVAS Especialistas ouvidos pelo Estado apoiam a política, mas fazem ressalvas. "Os museus vivem situação difícil e municipalizar pode ser a solução", diz o historiador Marco Antonio Villa, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor do livro Breve História de São Paulo, ainda inédito. "Entretanto, é preciso que haja uma proposta consistente, pois um museu só é bom quando interessa à população." Para o historiador Paulo Henrique Martinez, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e organizador do evento "Museus Municipais e Políticas Públicas", a municipalização pode aproximar a população local do museu. "Mas é preciso deixar o acervo atraente, dinamizando-o com eventos e exposições temporárias. Assim, o museu se torna interessante para pequenos municípios, movimentando o turismo e o comércio." Essa é a receita da diretora de Cultura de São José do Rio Pardo, Lúcia Vitto. Sob seu comando está a Casa de Cultura Euclides da Cunha - em processo de municipalização - e o Museu Municipal Rio-Pardense. "Temos um evento no museu pelo menos a cada dois meses", conta. "As pessoas vêm e se apaixonam pelas peças que estão expostas. Isso faz a molecada gostar de História."

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