'Não há motivos para preocupação real'

ENTREVISTA

Eduardo Kattah BELO HORIZONTE, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2010 | 00h00

Fábio Wanderley,cientista político e professor emérito da UFMG

O cientista político e professor emérito da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Fábio Wanderley Reis, considera que não há elementos para interpretar que o PT prepare um projeto autoritário de poder com a eventual eleição de Dilma Rousseff.

Ele tratou como "formulação imprópria" a declaração do ex-ministro José Dirceu, de que haveria "excesso" de liberdade de imprensa, e disse que a fala do presidente Lula - de "extirpar o DEM" - é mais um arroubo dos seus discursos de improviso.

As declarações do presidente Lula e do ex-ministro Dirceu resultam do momento eleitoral ou revelam parte de um projeto político do PT que se desnuda?

Não vejo isso. Em relação ao caso do José Dirceu, pelo que vi reproduzido, ele mesmo corrige. Pode ser lido como uma formulação imprópria de algo que tem um resíduo legítimo. Assim como você tem controle externo até do Judiciário, se justifica alguma preocupação com o controle da imprensa. O que não significa censura prévia ou coisa parecida. Eu não diria aquele conselho que se andou propondo, mas algum instrumento que pudesse coibir excesso. Um órgão qualquer representativo das próprias entidades ligadas aos meios de comunicação, escolhido democraticamente. Uma coisa nessa linha é perfeitamente defensável. No caso do Lula, a gente está cansado de saber dos estorvamentos do presidente falando de improviso. Não acredito que na cabeça do Lula estivesse propriamente a ideia de arrasar o DEM, de criar condições que impossibilitasse o partido de existir. É claro que estamos, por outro lado, num contexto de debate político em que as coisas estão extremadas de parte a parte. Tenho impressão de que não há motivos para preocupação real, para a leitura de que a gente esteja envolvido na realização de um projeto tirânico, autoritário, totalitário, etc. do PT ou coisa parecida.

Seria esse momento extremado que levou o ex-presidente Fernando Henrique a acusar Lula de agir como "chefe de facção" e o presidente do DEM, Rodrigo Maia, compará-lo a Hitler?

O Fernando Henrique o comparou ao Mussolini, apesar de contextualizar. Acho que isso é briga eleitoral, basicamente é briga eleitoral.

Como o sr. enxerga um eventual governo de Dilma Rousseff?

Tenho dito de público, tenho escrito em artigos na imprensa que a Dilma como candidata me parece algo negativo. Eu não gosto nada da candidatura da Dilma. Acho que pode ser eventualmente uma boa gestora, mas certamente justifica a percepção em relação a ela de que se trata de um poste, cuja provável eleição é um milagre total do Lula.

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