Não houve acerto entre polícias no caso Caringi

O assaltante Gilberto Palhares estava irredutível. Exigia um carro-forte, armamento pesado e dinheiro para libertar a refém Adriana Caringi, de 23 anos. Após duas horas de conversa, finalmente cedeu. Aceitou trocar o carro blindado por um Gol e as metralhadoras por uma pistola. Imediatamente, o diretor do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e negociador do Grupo Especial de Resgate (GER) da Polícia Civil, delegado Cláudio Gobbetti, ordenou que seus homens providenciassem o material, mas com pequenas armadilhas para o criminoso. O veículo foi cuidadosamente preparado para facilitar o trabalho da polícia em uma eventual perseguição. As lanternas traseiras foram substituídas por lâmpadas mais fracas, a fim de não se misturarem com luzes dos outros carros. A calibragem dos pneus também foi reduzida para dificultar a dirigibilidade. Enquanto isso, outra equipe mexia na pistola que seria entregue ao ladrão. "Desmontamos a arma inteira na pia da cozinha, retiramos só a agulha e fechamos", relembra um delegado que atuou no caso. "Enchemos o pente de bala, mas, sem a agulha, ele não conseguiria disparar nenhum tiro." No início da madrugada daquela terça-feira, todo o aparato exigido já estava à disposição do bandido. O tiro disparado pelo cabo Marco Antônio Furlan foi ouvido quando o delegado Gobbetti subia as escadas para repassar a pistola ao seqüestrador. "Nunca soubemos o que aconteceu. Nessa busca do meu pai pela verdade, por várias vezes surgiu a história de que estava tudo pronto e o tiro foi resultado de uma disputa entre as polícias para ver quem solucionava o caso primeiro", diz Renata, irmã da vítima. Adriana caiu nos braços da mãe. A ladra Regiane dos Santos se trancou no banheiro. Ao ver a cena, Pedro Caringi levantou a persiana da janela e, aos berros, dirigiu-se aos policiais: "Vocês mataram a minha filha, vocês mataram a minha filha!" Nesse momento, homens da Rota invadiram o sobrado. Segundo eles, Regiane reagiu à prisão e foi morta. Acusados de execução, os PMs acabaram absolvidos pela Justiça Militar. O disparo feito pelo cabo Furlan foi certeiro, na cabeça do ladrão. O erro estava na munição utilizada - uma bala de fuzil calibre 7.62, "capaz de estraçalhar a cabeça de um rinoceronte ou matar mais de cinco pessoas enfileiradas", disseram policiais à época. Em entrevista logo após o episódio, o atirador disse que tinha pouca visão do quarto. "Eu sabia muito bem quem aparecia, apesar da pouca visão, e tive a cabeça do assaltante por mais de uma vez na minha mira. Quando atirei, tive plena certeza de que estava acertando o ladrão - e não a moça."

Bruno Tavares e Renato Machado, O Estadao de S.Paulo

26 Outubro 2008 | 00h00

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