"Não me intimido", diz juíza que autorizou vistoria em Bangu 1

Há três anos na 1.ª Vara Criminal de Bangu, a juíza Sônia Maria Garcia Gomes Pinto, diz não se intimidar diante do poder do crime. Foi ela quem autorizou a vistoria realizada pelo Ministério Público (MP) em Bangu 1, na manhã de terça-feira, e determinou o afastamento temporário do diretor da unidade, Durval Pereira de Melo, e de 98 agentes penitenciários suspeitos de conivência com criminosos. Além disso, ela determinou a prisão temporária do advogado Hélio Rodrigues Macedo, acusado de associação com o traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar.A magistrada tomou essas decisões após ouvir 400 horas de gravações de conversas telefônicas de celulares no interior de Bangu 1, nas quais a quadrilha de Beira-Mar negocia a compra e venda de armas e drogas. As interceptações telefônicas, realizadas pela Polícia Federal (PF), ao longo de 20 dias, também foram autorizadas por ela. O primeiro celular grampeado, por sinal, foi o de Macedo, a partir do qual outros números foram levantados. Sônia afirma que o MP deverá apresentar denúncia contra os criminosos. "Os indícios são muito fortes. É um trabalho sério?, disse. ?Nunca me melindrei em tratar com a criminalidade. Lugar de bandido é atrás das grades. Não posso negar que haja perigo, mas não me intimido. São ossos do ofício", afirmou a juíza. Ela admite, porém, que a vara de Bangu é "extremamente perigosa" e que esse é o caso de maior repercussão nos dez anos de sua carreira. Ontem, ela relutou a dar entrevistas e não quis ser fotografada.A juíza foi conciliadora ao comentar a crise que a ação do MP detonou com o governo do Estado. "Não há objetivo de briga de poderes. Queremos a mesma coisa, a paz social, o bem comum. É preciso acabar com essa vergonha, os cidadãos estão atrás das grades." Aos 45 anos, Sônia tem três filhos e um neto. Viúva de um defensor público, ela foi juíza em Santo Antônio de Pádua, no interior do estado, antes de ser transferida para Bangu, na zona oeste. "Sempre me considerei inimiga número um do crime. Gostei de ser reconhecida por algo que sempre esteve dentro de mim."Sônia considera que ainda não há elementos para que seja oferecida denúncia contra a administração do presídio, mas afirma haver indícios de cooperação de agentes penitenciários com presos. "Há indícios de que houve algum problema. Se essa equipe não mostra desempenho satisfatório, vamos trocá-la. Afastamento não é exoneração, não é perda de função. Trabalhamos com indícios ainda, são medidas cautelares. Cada autoridade faz a sua parte. Eu fiz a minha."

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