''Não sei quando vou parar''

Em entrevista ao ?Estado?, Gisele fala sobre Obama, crise e imprensa

Renata Cafardo, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2009 | 00h00

A irmã e empresária Patrícia Bündchen abre a porta do quarto do hotel e Gisele está lá, sem sapatos, sem maquiagem, mexendo no computador. Mantém o simpático hábito de se apresentar. "Prazer, Gisele." E começa a falar, antes mesmo de qualquer pergunta. Fala justamente que passou a escrever sobre seus sentimentos para impedir que fale demais. "Hoje eu entendo como a palavra é poderosa, pode ser um veneno. Depois que você fala, você não consegue retirar", disse ao Estado, na tarde de ontem, horas antes de seu sétimo desfile pela Colcci.Ela reclama de "revistas ridículas que inventam coisas", mas diz que não deixa de ler notícias na internet. Mistura inglês e gauchês. Nega as histórias divulgadas na semana passada sobre um eventual pedido de casamento dentro de um avião, feito pelo seu namorado, o jogador de futebol americano Tom Brady. Mas não deixa claro se vai ou não se casar. "Não aconteceu nada do que estão dizendo, mas não falo sobre minha vida pessoal."Não há anel de noivado no dedo e a entrevista segue para temas mais sérios. Gisele, que mora desde os 16 anos nos Estados Unidos (hoje ela tem 28), diz que comemorou a eleição de Barack Obama, uma pessoa "espiritualizada, articulada, consciente". E dá a entender que também perdeu dinheiro com a crise financeira mundial. "Se é assim que tinha que ser, eu me conformo, não fico reclamando. Vou lá trabalhar mais duro." A seguir, os principais trechos da entrevista.PARAR DE DESFILAREu adoro desfilar no Brasil, não desfilo muito mais lá fora. Sinto saudades do Brasil, é uma desculpa para eu poder vir. É outra energia, é o que eu sou. Saio daqui recarregada. Não sei quando vou parar. Não me falta paixão pelas coisas. Amo fotografia, amo decorar casa, eu quero criar. Têm várias coisas que estou pensando para este ano, mas o que aprendi é não falar sobre essas coisas.IMPRENSAJornal é a única coisa que fala a verdade, respeito muito mais. Hoje em dia a mídia não tem tanta responsabilidade. Essas revistas ridículas escrevem o que elas querem, inventam. Pegam uma foto sua bocejando e dizem que você estava gritando. Elas colocam poison (veneno). Todo dia é uma história diferente. Tudo o que está na mídia é mentira (sobre seu casamento). Dizem que foi no avião. É muita criatividade. Com meu ex-namorado, eu estive grávida umas cinco vezes. Por isso prefiro dizer que não falo de minha vida pessoal. OBAMAEu não posso votar nos EUA, mas fiquei muito feliz. Assisti aos debates. Parece ser uma pessoa muito conectada, inteligente, espiritualizada, articulada, consciente. Foi um grande passo para os Estados Unidos. O país nunca esteve numa situação como está hoje. O que Bush fez em oito anos? Fez com que os outros países ficassem p. da vida com os Estados Unidos. O que espero é que as pessoas sejam muito pacientes com Obama. Não dá pra resolver tudo em um ano, dois. Ele precisa de, no mínimo, oito anos. CRISEO que aconteceu nos EUA afetou tudo, a moda também. O que mais senti foi a apreensão das pessoas em gastar dinheiro, investir. Mas tenho certeza que tudo vai se ajustar. Se é assim que tinha que ser, eu me conformo com isso, não fico reclamando. Eu vou lá trabalhar mais duro.BRASILNão sei se sou fã do Brasil porque sou brasileira. Nós temos todos os recursos naturais, podemos viver sozinhos. A gente é independente na comida, no petróleo, na água. Vejo o Brasil daqui 10, 15 anos como uma das maiores potências do mundo. Não sei se sou otimista demais.CASA Eu moro em Boston, há um ano e meio. The home is where the heart is ("a sua casa está onde o coração está", diz em alusão ao namorado que joga no time da cidade). Lá é muito tranquilo. Em Nova York, têm 20 caras sentados me esperando toda vez que saio. Quanto mais velha vou ficando, mais eu aprecio tudo que está ao meu redor. Em Boston, vou caminhar, vejo esquilo. Vi uma águia esses dias.FUTUROCada vez eu entendo mais o ditado de que o que vale não é destination (objetivo) e sim how did you get there (como você chegou lá). O que você aproveitou, o que você viu. Me perguntam muito do futuro, mas a única coisa que é certa na vida é a mudança. Eu tenho 28 anos hoje e tudo o que eu achei que ia ser da minha vida não foi. Eu achei que eu ia voltar para o Brasil, não aconteceu. O legal é aproveitar as possibilidades que a vida te apresenta.

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