''Não sei ser rei, só sei cantar'', diz Roberto

Cantor faz show e festeja 50 anos de carreira em sua cidade natal

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

20 de abril de 2009 | 00h00

O bom filho à casa torna. Roberto Carlos chegou ontem a Cachoeiro de Itapemirim (ES), sua cidade natal, para fazer um show, 14 anos após lotar pela última vez o Estádio do Sumaré. A renda será revertida para uma instituição beneficente. A apresentação fez parte das comemorações pelos 50 anos de carreira. Às 20h52, Roberto surgiu no palco e atacou O Portão. "Eu voltei, pras coisas que eu deixei..." Roberto incluiu no repertório uma canção em homenagem à mãe, Lady Laura, e uma para seu pai, Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo. "Eu me sinto como se estivesse começando minha carreira hoje. Se bobear, parece até que eu tô na ZYL9 Rádio Cachoeiro de Itapemirim", brincou o Rei.Roberto está mudado. Cortou o cabelo, tirou os ternos de ombreiras, escolheu uma cor cinza sóbria para o paletó, está sorrindo mais. Até se lambuzou com o bolo de aniversário. "Eu queria que sempre tivesse bolo", disse. Pela primeira vez também não ofereceu o show à mulher morta, Maria Rita. "Esse show eu ofereço a cada habitante dessa cidade", disse. Foi a primeira demonstração pública de que superou o trauma da perda de Maria Rita, em 1999. Pela primeira vez em décadas, Roberto disse a palavra "mal" nos versos de É Preciso Saber Viver. Ele tinha banido, por superstição, o vocábulo de seu dicionário musical. Fez um show alto-astral. "Essas três crianças que subiram aqui são meus filhos. Ana Paula, Luciana e Dudu", disse, antes de cantar Jesus Cristo. Foram os filhos que subiram ao palco com o bolo com o qual comemorou 50 anos de carreira e 68 de idade. Foi o show mais surpreendente do Rei em décadas. Ele cantou canções esquecidas de seu repertório, como Alô, Quando e Do Fundo do Coração. Pouco depois do espetáculo, o empresário de Roberto, Dody Sirena, anunciou que o cantor fará um show gratuito, em dezembro, em São Paulo, e a intenção é reunir 1 milhão de pessoas. O local ainda não está definido.AGITOO jatinho do cantor aterrissou no Aeroporto Municipal Raimundo de Andrade às 17h e cerca de 500 pessoas já o esperavam havia três horas em festa, espremidas entre grades, vidros e arames farpados. A agitação chegou às raias da histeria. "Eu não sei ser rei, eu só sei cantar", disse Roberto Carlos numa tumultuada coletiva de imprensa improvisada no saguão do pequeno aeroporto. Segundo o cantor, é um caso "muito sério de amor" o que o une aos fãs de todo o País e prometeu que essa não seria sua última apresentação na terra natal. Segundo Roberto, o segredo da longevidade de sua carreira é que ele tem o mesmo sentimento do povo e compreende suas preferências. O Rei fica na cidade até hoje. A advogada Adnélia Santos veio do Rio na sexta-feira para ver o ídolo. Tinha rosas tatuadas no braço e, "num lugar que não podia mostrar", as iniciais do nome do cantor. Ela viu 75 shows do cantor ao longo da carreira e tem fotos e ingressos para provar seu feito. Segundo um dos mais ferrenhos fãs do Rei na cidade, o comerciante de sapatos José Carlos Scandiani, de 54 anos, esta foi a sétima apresentação do cantor em sua terra natal desde que saiu da cidade, há 54 anos. Scandiani sabe do que está falando. Ele festeja o aniversário do Rei em sua loja de calçados há 30 anos e o motivo todo mundo sabe: foi copiando letras das canções de Roberto que ele dobrou a resistência de Marinete Malheiros e casou-se com ela. É eternamente grato ao Rei.Roberto já voltou outras vezes incógnito a Cachoeiro. Já veio até para renovar a licença de motorista, há alguns anos. Scandiani conta que só viu o cantor uma vez de perto. E foi da maneira mais inusitada: numa madrugada, ele deu de cara com o ídolo. "Acho que deu saudade nele. Eu não acreditei e disse: ?Você é o cara, não?? E ele deu aquela risadona. Não incomodei mais porque sei que ele sofre com a falta de privacidade", diz Scandiani, exibindo diploma com a Comenda Roberto Carlos Braga, que lhe foi dada pela Câmara de Vereadores.

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