Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

'Não tenho mais ninguém para falar', diz idosa em tribo indígena

Aos 110 anos, dona Juvelina Krenak tenta manter sua língua viva

Edgar Maciel, O Estado de S. Paulo

14 Março 2015 | 18h20

Na certidão de nascimento de Juvelina Krenak está escrito: 20 de outubro de 1935. Oficialmente, seriam 80 anos. Dona Juvelina, no entanto, tem 110 anos de idade. Só foi registrada quando ela, o marido e os 12 filhos foram retirados da área indígena no norte de Minas e removidos para São Paulo, na tribo Vanuíre. Hoje, vive sozinha em uma das casas da aldeia e é a única falante da língua crenaque no Estado.

A índia é considerada a consultora oficial dos professores e pesquisadores que trabalham para recuperar o idioma. Mas, na presença de estranhos, disfarça e é uma mulher de poucas palavras. “Não sei quase nada de crenaque. Não tem mais ninguém para conversar comigo e deixei de lado. É melhor esquecer”, diz.

Mentir é uma forma de proteção. Repressão e agressão são duas palavras que Juvelina lembra com frequência sobre quando tentava se comunicar em crenaque com os outros índios. “No começo, ela resistia. Falava em crenaque com o meu pai, meus tios. Mas, com tanto sofrimento, desistiu. Guardou as palavras para si”, conta a filha Lia Krenak, de 58 anos.

A árvore genealógica da centenária índia tornou-se grandiosa com o passar dos anos. Entre filhos, netos, bisnetos e tataranetos são mais de 140 pessoas. Nenhum deles aprendeu a língua. Todos foram “protegidos”. “Eu não quero que eles sofram. São minha família, a quem eu quero bem”, diz.

A última vez em que Juvelina falou a língua fluentemente foi quando uma prima distante, que mora em Minas, visitou a tribo Vanuíre, em 2004. “Consegui lembrar da minha infância, dos meus pais que morreram quando eu era pequena, de como a minha vida era antigamente”, diz ela.

Fim do silêncio. Para quebrar o ciclo do silêncio e repassar o conhecimento do idioma foi necessário um longo processo de convencimento. A neta Lidiane Krenak, de 27 anos, visitou a avó durante dois anos, até ela concordar em voltar a falar a língua indígena. “Tentava conversar em crenaque com a vó e ela insistia no português. Até que um dia ela de repente começou a contar histórias do passado na nossa língua.”

Hoje, Juvelina passa os dias vigiando a pequena plantação de milho, brinca com os sete gatos e cozinha os pratos típicos da tribo. À tarde, senta na varanda e espera a visita de algum parceiro de prosa. “Se alguém senta nessa cadeira não sai em menos de duas horas. Vai ter uma aula com um dicionário ambulante”, brinca Lidiane. 

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