Nas placas, a história feminina de SP

Milhares de pessoas atravessam ruas da capital sem imaginar o que fizeram as mulheres que as denominam

Marici Capitelli, O Estadao de S.Paulo

08 de março de 2009 | 00h00

Maria Luiza veio do Rio. Sonia Maria tinha acabado de chegar da França. Marina era de Jaú. Paulina, Veridiana, Maria Angélica e Elídia Maria nasceram e cresceram na capital. Todos os dias milhares de paulistanos se deparam com os nomes dessas sete mulheres em placas que denominam ruas, viadutos e praças da mais movimentada cidade do País. Muitos já não se lembram de quem elas foram e outros nem podem imaginar. Mas as histórias de suas vidas se misturam com a arquitetura, a cultura e o crescimento de São Paulo. Ricas ou humildes, todas elas deixaram herança para a metrópole: uma cidade mais humana e feminina.Essa cidade era o desejo, por exemplo, de Ana Rosa de Araújo, que no século 19 criou a entidade beneficente mais antiga do Brasil. Moradora da Vila Mariana, na zona sul, deixou em testamento recursos para que fosse fundada no bairro uma entidade para cuidar de crianças carentes e trabalhar com cursos profissionalizantes.Outra que protegia pobres e doentes no século 19 era a Condessa Elizabeth de Robiano, uma das denominações atuais da Marginal do Tietê. Ela fundou a congregação das "servas dos pobres". Curiosamente é uma das mulheres que contribuíram com a cidade sem jamais tê-la conhecido - coube às religiosas que chegaram à capital mais de cem anos após sua morte estabelecer seu legado. E há muitas outras homenageadas e a serem homenageadas. Qualquer cidadão pode propor um nome de rua. Basta fazer um requerimento à Prefeitura, que se encarregará da pesquisa histórica. Baronesa Maria Angélica Queiroz de BarrosAvenida em HigienópolisUma das características dessa baronesa que viveu 87 anos é que adorava mexer com a terra na própria horta .Também cuidava pessoalmente dos passarinhos na propriedade rural que tinha na região onde está a avenida que a homenageia. Neta do brigadeiro Luís Antonio (que também virou nome de rua), teve dez filhos. Doou uma das suas propriedades à casa Pia de São Vicente de Paula, para a criação de meninas órfãs. Tinha também um palacete de inspiração alemã com 18 quartos. "O que sabemos dela é que era uma mulher muito caridosa e simpática", conta a bisneta , a historiadora Thereza Regina de Camargo Maia, de 73 anos , que sente grande pesar por não tê-la conhecido . A família da baronesa, que tem muito orgulho de suas origens, encontrou uma maneira de homenageá-la: está na quarta geração de Angélicas. A segunda delas foi Maria Angélica de Barros Rangel de Camargo , mãe de Thereza, que morreu em 1981, aos 85 anos. Atualmente duas carregam o nome, a sua filha de 43 anos e a neta de 10, que vivem em Guaratinguetá.Paulina de Souza QueirozViaduto no centroPaulina era filha da baronesa de Limeira. Não se casou nem teve filhos. Mas deixou um legado para a cidade: a creche Baronesa de Limeira, que existe há 104 anos, na zona sul. A entidade que ela criou atendia em regime de internação meninas abandonadas por suas famílias. Muitas das atas de óbitos e anotações dos registros da creche foram feitos pela própria Paulina. "É interessante porque por esses registros vemos a evolução da cidade", conta Maria Isabel Alves de Lima, vice-presidente da creche, que ainda hoje atende 470 crianças.Sonia Maria de Moraes Angels JonesViaduto na zona sul Depois de ser presa e liberada durante a ditadura militar, Sonia se exilou na França. Mas, em 1973, ela voltou, ao saber da prisão e desaparecimento do marido - Stuart Edgar Angel Jones. No retorno, retomou a resistência pela Ação Libertadora Nacional (ALN). No mesmo ano, foi torturada e morta pelas forças da repressão. Chegou a ter os seios arrancados. Tinha 27 anos. A família fez várias exumações até conseguir reunir todo o corpo. A última parte foi encontrada na vala clandestina no cemitério de Perus e encaminhada ao Rio, em 1991.Elída Maria de FreitasPraça na zona oesteDona de casa, Elídia era inconformada com a falta de estrutura do Jardim São Jorge. No início da década de 90, passou a liderar a comunidade para conseguir melhorias como a reabertura de um posto de saúde e de uma escola. A partir daí foi se engajando em trabalhos comunitários para reivindicar iluminação e asfaltamento, entre outras benfeitorias. Vivia com uma enxada, limpando o que precisasse de cuidados no bairro. Para aumentar a renda e ajudar no sustento dos oito filhos, tinha um bazar ao lado da casa. Só que o local servia como uma romaria de pessoas carentes em busca de ajuda. Conclusão: o comércio faliu, mas cada um que buscava atendimento tinha sua necessidade suprida. Ela chegava a fazer cestas básicas da própria despesa da família para distribuir para a comunidade. "Hoje nós vivemos em um bairro com infraestrutura", orgulha-se o filho Claudio Freitas, de 37 anos.Maria Luisa Americano Avenida na zona leste Se não fosse a determinação dessa mulher, o Palácio dos Bandeirantes funcionaria em outro endereço hoje. Na gestão do governador Abreu Sodré(1967-1971), ele comunicou ao engenheiro Oscar Americano que pretendia desapropriar a casa de sua família no Morumbi, zona sul, para transformá-la na nova sede do governo estadual. Achava que o imóvel era perfeito para essa finalidade. Oscar Americano se conformou, mas sua mulher ficou indignada. Quando o governador visitou a propriedade, ela chorou e mostrou que a casa era importante para a família, pois todas as árvores haviam sido plantadas pelo casal. Abreu Sodré nada disse durante a visita, mas no dia seguinte telefonou ao engenheiro, informando da desistência. E assim era essa mulher, mãe de cinco filhos, que vivia envolvida com questões sociais. "Uma das imagens que tenho da minha mãe era ela doando muitos pêssegos e uvas para o Hospital Santa Marcelina. Era de uma generosidade impressionante", lembra a filha Anna Helena Americano Araújo, de 71 anos. Tanto é que seu nome ainda denomina um bairro na zona leste e a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano, na zona sul.Veridiana Valério da Silva PradoRua em Santa CecíliaÉ considerada uma feminista, já que, na sua época, fazia tudo que as mulheres não podiam: administrava seus negócios, saía sozinha de casa e se separou do marido aos 53 anos. Muito rica, se dedicava a obras de caridade . É uma das benfeitoras da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. O tetraneto Luiz Felipe Chaves D?avila, de 43 anos, é autor de um livro sobre ela. "O que me chama muita atenção na sua história é que deixou herança para várias mulheres da família e outras que eram suas amigas, para que tivessem independência financeira." Em seu casarão, localizado na rua que leva seu nome, costumava abrir os jardins para visitação pública e com isso reunia pessoas de todas as classes sociais. "Era muito à frente do tempo que vivia, tanto é que sua casa era um salão intelectual e social que muito contribuiu para o desenvolvimento de São Paulo", diz o tetraneto. Morreu aos 83 anos.Marina CintraRua da zona oesteFormada em Serviço Social e educadora por paixão, ela é considerada visionária por todos que a conheceram ou que ainda dão continuidade ao seu trabalho. Marina focou sua atuação na formação de jovens porque acreditava que a educação era um caminho para a evolução do ser humano. Em agosto de 1942, fundou a Colmeia, instituição que visa à formação de jovens. Na época, os colmenianos discutiam também questões políticas. Era uma mulher que já pensava em terceiro setor quando ninguém discutia a questão. "Me lembro dela com uma grande energia, mas também da severidade com que tocava os projetos", afirma o advogado Angelo Arthur de Miranda Fontana, de 80 anos. Ele e a mulher deram à filha o nome de Marina, em homenagem a amiga que havia morrido poucos meses antes em um acidente aéreo, aos 49 anos. A Colmeia beneficia cerca de 500 jovens.

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