Nas ruas de SP, ainda vale a lei do mais forte, diz enquete

As situações são cotidianas. Carros trafegando pela pista exclusiva de ônibus ou no acostamento, fechando o cruzamento, sobre a faixa de pedestres - que não serve para nada, se não acompanhada de um farol. E é preciso cuidado, porque há os que atravessam o sinal vermelho. Fazem manobras bruscas, colocando em risco motoqueiros, que, por sua vez, abrem caminho com o pé no retrovisor alheio. Um xinga o outro - isso, quando não termina em tragédia. E por aí vai. É no trânsito e nos estacionamentos que mais falta civilidade, segundo 57% dos 1.927 internautas que responderam a uma enquete do Portal Estadão, entre terça, 20, e sexta-feira, 23.O transporte público aparece em segundo lugar, com 20% dos votos. Isso graças à lotação de trens, ônibus e metrô, de motoristas que não param no ponto, de passageiros que entram sem antes deixar sair e de espertinhos que ocupam assentos reservados a idosos, gestantes e deficientes. Entre outros tantos casos relatados pelos internautas. Para 83% deles, falta civilidade - destes, 42% disseram ser vítima disso diariamente.A nova campanha do Gol 2007 traz a seguinte cena: um tanque de guerra, grandalhão e lento, prepara-se para entrar na única vaga livre de um estacionamento, quando o Gol, menor e mais ágil, rouba-lhe o lugar. ?É situação comum em São Paulo. Vence o mais ágil?, diz Wilson Mateos, redator da agência AlmapBBDO, responsável pela propaganda. ?O Gol é resistente, enfrenta tudo. Pode ser menor, mas é mais esperto. Esse é o mote?, explica, em deferência à Lei de Gerson, perpetuada na década de 1970 por outro comercial de TV - nele, o jogador de futebol Gerson dizia levar vantagem por escolher a marca de cigarros Vila Rica.Mas não é errado estimular tal atitude? ?Não dá para fazer humor politicamente correto.? Quem vive a cena no dia-a-dia, comum na cidade de 5,6 milhões de carros para 31 mil vagas de Zona Azul, não acha graça. O próprio redator confessa: ?Não gosto de encrenca, procuro outra vaga.? A disputa por espaço vai além dos estacionamentos. ?Moro numa rua estreita, de muito trânsito, e toda manhã custo a sair da garagem, pois não me dão passagem?, diz Claudio Pupo Amorim, de 57 anos. Às vezes, prefere o ônibus e fica indignado com jovens fingindo dormir para não dar lugar aos mais velhos.LeisDe nada adiantam leis. ?Atravessava na faixa de pedestre com meu filho de 7 meses no carrinho, quando um carro passou no farol vermelho e quase nos atropelou?, diz o economista Cassio Franco Ribeiro, de 33 anos. A socióloga Alessandra Olivato, autora de tese sobre espaço público e civilidade na metrópole paulista, diz que a raiz do problema está na falta de entendimento do que é público, onde todos têm direitos iguais, e privado, onde prevalece a lógica particular. ?No Brasil, é histórico o uso de privilégios em benefício privado.? Ela entrevistou 54 motoristas de ônibus, lotação, táxi e carros, motoboys e pedestres. ?Todos relataram razões particulares, como pressa ou stress, que julgavam dar-lhes direito de cometer as faltas.?É a lógica do fura-fila. Tem quem guarde lugar na fila do supermercado, pais que aguardam na fila para os filhos nos brinquedos lotados dos parques. Em boates e restaurantes, tem ainda o ?cliente habitué?, que passa à frente dos outros por ser amigo do dono, relata a gerente de vendas Roberta dos Santos Amorim, de 30 anos, sobre episódio recente em bar da Vila Olímpia.Não escapam à falta de cordialidade e boas maneiras nos elevadores, condomínios, salas de teatro e cinema, shoppings. Há quem jogue lixo na rua, não recolha sujeira do cão, incomode com barulho e outras apropriações indevidas do espaço público. Tanto que o Shopping Iguatemi pendurou no ano passado placa nos banheiros proibindo ?realizar no local atos de asseio pessoal como escovar os dentes, lavar-se na pita e secar o cabelo?.O engenheiro Alberto Sentieri, de 48 anos, saiu para trabalhar e, ao voltar, havia uma cerca elétrica sobre seu muro, colocada pelo vizinho. ?Por essas e outras, deixei São Paulo.? Hoje, vive nos Estados Unidos. Para o cientista político George Avelino Filho, da Fundação Getúlio Vargas, autor de textos sobre cordialidade e civilidade, o País passa por crise moral. ?Os crimes sem punição, a corrupção, levam ao enfraquecimento da idéia de civilidade.?

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