Nas vilas operárias, o pior do descaso

Há flagrantes de tombamentos que se tornaram praticamente invisíveis

Rodrigo Brancatelli e Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

03 de janeiro de 2009 | 00h00

O que era para ser uma vila operária centenária - com direito a casinhas no estilo inglês, escola, igreja e até uma estação própria de trem - hoje se resume a muito entulho, esqueletos de concreto, paredes prestes a cair e memórias esquecidas. Parece mais uma cidade fantasma. Conhecido como Vila Portland, parte de uma imensa fábrica de cimento que deu suporte para o desenvolvimento de toda São Paulo, o local apodrece na periferia de Perus, sem que ninguém dê atenção. Vislumbres do charme da década de 20, barulho de grilos e várias baratas se perdem por entre as rachaduras dos imóveis, todos tombados pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental (Conpresp).É um triste resumo do patrimônio histórico paulistano. Aliás, para descobrir que ali jaz um capítulo importante da história da capital, só mesmo recorrendo aos livros de história. Inaugurada em 1926, a antiga fábrica localizada em Perus foi a maior fornecedora de cimento no País até 1933. Propiciou a construção do Anhangabaú, do Viaduto do Chá, dos viadutos da 9 de Julho e da Biblioteca Mário de Andrade e a canalização do Rio Tietê. Na década de 80, porém, começou a já bem conhecida degradação. O local que deveria atrair turistas e interessados por arquitetura, mesmo tombado em 1992, hoje só chama a atenção de ratos e insetos.Esse é apenas um exemplo em meio aos 740 imóveis tombados que estão abandonados, descaracterizados ou destruídos em São Paulo. Mudam-se os endereços, os bairros e as zonas, mas a falta de uma política eficiente de preservação se repete por toda a cidade. Vila Maria Zélia, Vila Itororó, Vila Economizadora, casas do Brás, galpões da Mooca... Seguindo o rastro das resoluções do Conpresp, o Estado encontrou casos flagrantes de patrimônio invisível, bens tombados imperceptíveis, que estão ali mas ninguém se dá conta.A zona leste ganha como a região da cidade que proporcionalmente menos cuida de seu patrimônio, com 94% dos imóveis tombados destruídos de alguma forma ou abandonados. Mas é o centro paulistano que ainda leva o título de degradação em números absolutos. Há casos como o do sobrado da Associação Auxiliadora das Classes Laboriosas, na Rua Roberto Simonsen, que pegou fogo em fevereiro de 2007 e até agora não foi reformado, da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, infestada de cupins e com infiltrações que comprometem a sua estrutura, ou mesmo dos 64 prédios comerciais do Vale do Anhangabaú que estão completamente abandonados.Entre os 429 imóveis destruídos ou abandonados da região central, encontra-se o palacete do número 156 da Rua Coronel Xavier de Toledo. Embora seja um ponto movimentado, na frente da estação do metrô, poucos erguem os olhos para ver o prédio de cinco andares com linhas neoclássicas, transformado em anão pelos vizinhos com o dobro do tamanho. Se alguém o observa mais atentamente, é para se perguntar: o que aconteceu com ele?O palacete de janelas eternamente fechadas, desocupado nos anos 90, já foi prostíbulo e hoje serve de depósito para os pontos de comércio que funcionam no térreo (aliás, vários outros edifícios tombados do centro só têm como serventia serem depósitos de mercadoria). "Ali em cima há ratos e pombos por todo o lado e às vezes fica fechado por meses. Ninguém nunca se importou em restaurá-lo", afirma Luiz Wong, proprietário de uma pastelaria que funciona no edifício. "É a história da cidade desaparecendo na frente de todos", diz o comerciante Jorge Oliveira, cuja família foi proprietária de uma loja de guarda-chuvas no edifício por 38 anos. "O pior é que, ao mesmo tempo, parece que ninguém vê."

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