Nayara diz que voltou sem aval dos pais

Mãe se queixa do Gate; filha diz que Alves exigiu que ela entrasse no bloco

Diego Zanchetta, O Estadao de S.Paulo

23 Outubro 2008 | 00h00

Nayara, de 15 anos, revelou ontem em depoimento que voltou ao cativeiro sem a autorização dos pais, Andréia de Araújo e Luciano Vieira. A Polícia Militar, segundo a mãe, pediu para a garota negociar a rendição de Lindemberg Alves, de 22 anos, que mantinha refém a ex-namorada Eloá, de 15. Nayara faria apenas um contato telefônico com o seqüestrador. Ela voltou a ser refém na manhã de quinta-feira à revelia dos PMs - após ter ficado por 33 horas no local até à noite de terça. Ela só entrou porque Alves pediu a aproximação por celular. Ao abrir a porta, ele ameaçou Eloá com um revólver. A orientação dada pelos policiais do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) na base montada na escola ao lado do Conjunto Habitacional do Jardim Santo André era para que a adolescente negociasse a rendição de Alves no mesmo andar, sem se aproximar. "Um tenente da PM, que não quero falar o nome, disse que ela iria negociar por telefone. Quando eu virei as costas, ela já estava com o celular dentro o prédio. Não houve nenhuma explicação. A polícia disse que ela passou do ponto permitido. A polícia poderia ter evitado que ela entrasse na casa", afirmou a mãe. Nayara seguiu para o local acompanhada de Ewerton Douglas, de 14 anos, o irmão mais novo de Eloá. O garoto ficou em um andar abaixo de Nayara, que seguiu a negociação com o seqüestrador. Alves exigiu a presença de Nayara como uma condição para se entregar e libertar Eloá. Conforme o combinado com os policiais do Gate, ele deixaria as armas dentro do apartamento. Em seguida, os três jovens desceriam as escadas de mãos dadas. Quando Nayara se aproximou da porta do apartamento, Alves quebrou o acordo firmado com o Gate. "Ela se aproximou mais, acreditando que ele fosse cumprir a palavra de se entregar, mas ele acabou exigindo que ela entrasse também", disse o delegado seccional de Santo André, Luiz Carlos dos Santos. Não era para a adolescente nem chegar perto da porta da casa de Eloá. A porta estava fechada, mas, por telefone, Alves exigiu a aproximação de Nayara. No depoimento, Nayara contou que Alves observava toda a movimentação dos policias do Gate pelo olho mágico da porta da sala. O seqüestrador, segundo a versão da adolescente, abriu a porta e, com arma apontada para Eloá mandou Nayara entrar. Nesse momento, o rapaz mantinha Eloá como escudo humano. Nayara contou que ficou com medo de não atender a ordem do seqüestrador. A partir desse momento, a polícia viu, segundo o delegado, que ele estava disposto a matar e, então, começou a ser planejada a invasão do cativeiro. Nayara contou que Alves nunca deixou de portar arma. Ela disse que ele estava sempre abalado e afirmava estar disposto a matá-las. A mãe de Nayara, Andréia, disse que não sabe ainda se vai pedir uma indenização ao Estado. Questionada sobre o que mais atrapalhou o andamento e o desfecho do seqüestro, ela isentou a polícia. "Eu acho que o que mais atrapalhou foi a imprensa." TRECHOS DOS DEPOIMENTOS DO GATE Paulo Sérgio Schiavo, tenente, comandante da invasão, 34 anos - Não foi o mediador, estava postado no apartamento vizinho - Ficou acertado que, se houvesse um novo disparo no interior do imóvel, haveria incursão para o interior do apartamento pelo Gate - Disparo por Lindemberg ocorreu por volta das 18 horas - Após entrar no local, retirou Nayara, ferida na face - Foi o último a entrar no local, quando a equipe já havia feito disparo, sem saber quantos - Por volta das 14 horas de sexta-feira, dia 17, o acusado realizou disparos - Durante a explosão ocorrida para arrombamento da porta houve outros disparos efetuados por Lindemberg - No momento da prisão do acusado ouviu ele dizer que mataria mesmo Eloá - Único disparo realizado pelo Gate foi com munição não letal, que não atingiu o acusado Mário Magalhães Neto, 3.º sargento, 33 anos - Não sabe dizer quem deu a ordem para os PMs se posicionarem próximo do apartamento - Quando houve o disparo dentro do apartamento entraram no local - Houve revide de tiro por parte de Lindemberg - Houve apenas um disparo de espingarda calibre 12 do Gate com bala de borracha - Na invasão, Lindemberg estava no corredor entre a sala, o quarto e o banheiro, com o revólver em punho Frederico Mastria, Sargento, 47 anos, responsável pela explosão da porta - Integrantes da equipe tinham orientação do tenente Schiavo de invadir o apartamento se houvesse algum disparo feito por Lindemberg - Invadiram o local após ouvirem tal disparo - O acusado efetuou disparos contra a equipe, e não sabe precisar quantos - Quando entrou na sala, o acusado estava saindo da sala, em direção à cozinha, diante da porta do banheiro, realizando disparos contra os policiais - Não viu o instante em que Lindemberg teria atirado contra as vítimas - Único disparo realizado pelos PMs foi com arma não letal Maurício Martins de Oliveira, soldado, 27 anos - Não sabe dizer quem deu a ordem para se posicionarem próximo ao apartamento - Ficou predeterminado que, se houvesse algum disparo dentro do apartamento, a equipe entraria no local - Sua participação era como arrombador, caso a porta não abrisse - No momento em que a porta da sala foi forçada para abertura, a mesma não caiu, pois havia uma mesa segurando a porta - Em seguida ouviu alguns disparos que provinham do interior do imóvel - Não houve revide de tiro por parte do depoente, apena disparo de espingarda com bala de borracha - Lindemberg estava num corredor estreito entre a sala, o quarto e o banheiro, com uma arma em punho - O acusado efetuou disparos contra a guarnição. E quando acabou a munição, jogou a arma e levantou as mãos para o alto - Antes de adentrarem ao recinto, escutou estampidos de arma de fogo dentro do apartamento - Não tem condições de dizer se Lindemberg falou que mataria as vítimas Daylson Moreira Pereira, soldado, 25 anos, portava o escudo para proteger os policiais - Tinha orientação do tenente Schiavo de invadir o apartamento se houvesse algum disparo - O motivo principal da incursão no imóvel foi o disparo ocorrido - Entrou no local após o disparo, depois de a porta do apartamento ter sido arrombada com explosivo - Foi o primeiro a entrar empunhando o escudo, quando Lindemberg realizou disparos contra a equipe, mas não sabe dizer quantos - Sentiu o impacto no escudo, característico de tiro - Não viu o instante em que o acusado teria atirado contra Eloá e Nayara

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