Nayara terá alta hoje e poderá depor, diz médica

Diretora nega pressão da polícia; pai não quer que filha fale em seguida

Diego Zanchetta, O Estadao de S.Paulo

22 Outubro 2008 | 00h00

A diretora do Centro Hospitalar de Santo André, Rosa Maria Aguiar, afirmou ontem que a adolescente Nayara, de 15 anos, estará apta a prestar depoimento à Polícia Civil assim que tiver alta, no fim da tarde de hoje. A declaração, feita em entrevista coletiva na manhã de ontem, após reunião na noite anterior com policiais do Instituto de Criminalística (IC), confronta recomendação de psiquiatras e psicólogos que atenderam a garota anteontem, quando a informaram sobre a morte de Eloá Pimentel, de 15 anos. Nayara seguiu ontem alternando depressão e choro com momentos de entendimento pela morte da amiga. O pai, Luciano Vieira, garantiu que não deixará a filha depor. "Ela não vai prestar depoimento, não tem condições de falar nada ainda." Nayara foi impedida pelos médicos de ir ao enterro, mas ligou para a mãe de Eloá por volta das 8h30 de ontem. "Ela disse para a Ana Cristina (mãe de Eloá) que sentia muito e que gostaria de estar ao lado dela para abraçá-la", contou a mãe, Andréia Araújo. Segundo ela, a filha acordou abatida, sabendo do enterro, mas fez "o possível" para aceitar a situação. De acordo com a diretora do hospital que vetou a ida ao enterro, a recuperação da garota permite a participação, ainda nesta semana, da reconstituição do crime. O Estado apurou que os peritos de Santo André querem reconstituir o seqüestro, em um conjunto habitacional, até a próxima terça-feira. O depoimento de Nayara deve ser tomado amanhã cedo, após a primeira noite fora do hospital. "A probabilidade de alta amanhã (hoje) é grande e deve ocorrer no fim do dia. Ela vai para o centro cirúrgico de manhã para retirar um aparelho usado para a reconstrução do céu da boca", disse Rosa Maria. "Os policiais vieram conversar comigo para organizar o depoimento, a reconstituição. Ela tem condições", acrescentou. Questionada sobre a divergência de opinião com a equipe de psiquiatras liderada por Suely do Valle Yatsuda, a diretora disse que haverá nova avaliação psicológica antes da alta. O secretário de Saúde de Santo André, Homero Nepomuceno Duarte, havia dito anteontem que a jovem não teria condições de depor após a internação. "Posso adiantar que ela se comunica bem, de forma visível. Mas não é a saúde quem cuida das investigações", completou a diretora, que negou sofrer pressão da Polícia Civil. O depoimento de Nayara é considerado imprescindível para se saber se houve disparo do seqüestrador Lindemberg Alves, de 22 anos, antes da invasão do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) no apartamento onde estavam as vítimas, como afirma a PM. "O depoimento dela é realmente muito importante. Mas, independentemente de o tiro ter saído antes ou depois, isso não muda a acusação contra Lindemberg pelas tentativas de homicídios e cárcere privado. Ele será indiciado", disse o promotor Antonio Nobre Folgado, do Tribunal do Júri de Santo André. Ele vai receber o inquérito até o dia 30 e, então, terá cinco dias para preparar a denúncia. O pai de Nayara quer poupar a filha das lembranças dos dias em cativeiro. "Temos de distrair ela com outras conversas. Eu nem perguntei nada sobre tiro. Vamos ainda ver se ela vai conseguir salvar o ano escolar", disse Vieira. "Ela já chorou muito de manhã por causa do enterro da Eloá, mas agora, aos poucos, está compreendendo a situação." VISITAS Ontem, Iago, de 15 anos, que também ficou refém de Lindemberg no primeiro dia de seqüestro, visitou a namorada, Nayara. Ela contou a ele que, sob forte emoções, Eloá tivera pressentimentos ruins. "A Nayara disse que a Eloá a preparou para sua morte. Por isso, ela não ficou tão surpresa quando soube de seu falecimento", contou o pai de Iago. "Ela disse coisas e demonstrou sentimentos como se soubesse que sua vida estava chegando ao fim", afirmou. Nayara, a princípio, resistiu a ver Iago porque "estava muito feia", mas a médica a convenceu a recebê-lo. O encontrou durou meia hora. Amigos e o comerciante Masataka Ota, pai do garoto Ives Ota, assassinado em agosto de 1997 por um ex-funcionário da família, também foram ao hospital, mas não puderam visitar Nayara. "Temos de respeitar esse momento de dor da família. Combinei de fazer depois uma visita na residência deles", contou Ota. COLABORARAM VITOR HUGO BRANDALISE e MARCELA SPINOSA

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