Negociação com controladores de vôo provoca crise militar

A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de impedir a prisão dos controladores de vôo amotinados no centro de controle aéreo de Brasília (Cindacta-1) abriu uma crise entre os militares. Para oficiais-generais ouvidos pelo Estado, a ordem presidencial ?maculou? a hierarquia e a disciplina, pilares das Forças Armadas. Mesmo insatisfeito, o Alto Comando da Força Aérea Brasileira (FAB) divulgou ontem uma nota oficial em que acata o acordo feito entre o governo e os sargentos controladores. ?Temos de nos adaptar aos tempos e preservar as instituições. Mas já que é desejo deles (dos líderes do movimento) se tornar civis, queremos que saiam o quanto antes do nosso convívio?, diz um oficial da FAB. Não há clima de demissão no Alto Comando da Aeronáutica. ?Por enquanto, todos vão manter seus postos.? Apesar disso, os oficiais consideram que se abriu um precedente perigoso para as três Forças. Na opinião de outro militar, melhor seria que o governo se reunisse com o Alto Comando da FAB e revisse a decisão de não punir os rebelados. ?O que eles (os controladores) fizeram é crime, previsto no Código Penal Militar.? Um oficial do Exército foi mais longe: ?Você sabe que os nossos pilares são hierarquia e disciplina. Sessenta e quatro só saiu porque tentaram quebrar esses dois pilares?. A frase com a referência ao movimento que derrubou o presidente João Goulart em 1964 demonstra o apoio que a FAB recebeu ontem do Exército e da Marinha. ?Há total solidariedade com o comando da Aeronáutica, não tenha a menor dúvida disso?, diz um oficial do Exército. Os militares avaliam que é necessário demonstrar união, para evitar que a atitude dos controladores tenha um efeito dominó. ?As três Forças sofrem o mesmo problema (salarial)?. Daí o risco que os oficiais dizem haver de eclosão de outros movimentos reivindicatórios nas Forças Armadas. As imagens de praças amotinados em Brasília e em outros quartéis exibidas pela imprensa causou revolta e a certeza de que os controladores promoveram um motim, crime que seus autores não procuram esconder. Pelo contrário, posaram para fotos, numa verdadeira afronta aos seus comandantes. Ao contrário do que ocorreu na gestão do brigadeiro Luiz Carlos Bueno, desta vez os militares não criticaram a atuação do comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, na condução da crise. O Palácio do Planalto também assegurou estar ?muito satisfeito? e garantiu a manutenção de Saito. ?O comandante da Aeronáutica não está comprometido e não foi desautorizado pelo presidente. O presidente não vai mexer no Saito?, disse um interlocutor direto do presidente. ?Ele (o comandante da FAB) teve coragem de parar no meio do caminho e agiu com sabedoria?, afirmou Lula, de acordo com o mesmo interlocutor. Concluídas as negociações, ainda na madrugada de sábado, Saito convocou uma reunião do Alto Comando da Aeronáutica para as 10 horas de ontem. Avaliou-se a crise e suas seqüelas - inclusive os danos à imagem de Saito. Ele permaneceu no cargo, para não agravar mais a situação. Seu sucessor natural, o brigadeiro Jose Américo dos Santos, já foi comandante do tráfego aéreo e enfrentou problemas com controladores. Em relação ao ministro da Defesa, Waldir Pires, o interlocutor do presidente afirmou que ?foi negativa a ausência dele em Brasília, na hora que estourou a crise?, e não sabia a razão de sua viagem. Só ontem a Defesa explicou que o ministro foi ver a filha, que passou por cirurgia. Inteligência Há uma semana, os serviços de inteligência da Aeronáutica sabiam que haveria algum tipo de ato de protesto dos controladores. Segundo um oficial do setor, eram esperados um encontro das famílias dos técnicos diante do Cindacta-1 e uma operação-padrão nos aeroportos, no feriado da Semana Santa. O militar considera que o auto-aquartelamento e a paralisação das operações podem ter sido decididos de última hora, depois que as lideranças dos controladores tomaram conhecimento do vazamento das informações. FAB acata desmilitarização Abaixo, a íntegra da nota oficial divulgada ontem pela FAB: ?Em decorrência do acordo estabelecido na noite de 30 de março entre o governo federal e os controladores, o Comando da Aeronáutica propôs que os controladores passem a exercer, independentemente da gestão militar, o controle de tráfego aéreo de natureza civil, a partir da criação de um novo órgão, diretamente subordinado ao Ministério da Defesa. Os militares e civis que atuam em órgãos de controle de tráfego aéreo passarão à subordinação dessa nova organização. A Aeronáutica continuará com sua atribuição institucional de Controle do Espaço Aéreo, cabendo ao novo órgão a ser criado o Controle da Circulação Aérea Geral. O Comando da Aeronáutica compreende a posição assumida pelo governo, em face da sensibilidade do assunto para os interesses do País, principalmente no tocante à garantia da tranqüilidade do público usuário de transporte aéreo. O Alto Comando da Aeronáutica, diante da gravidade da atitude adotada pelos controladores, destaca a importância da manutenção dos princípios basilares da hierarquia e da disciplina e reafirma a coesão da Força Aérea sob a autoridade de seu comandante.? (Colaboraram Tânia Monteiro e Roberto Godoy)

Agencia Estado,

01 Abril 2007 | 12h33

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