Negociadores de dossiê acusam representante do PT paulista

O dinheiro destinado a comprar material para tentar acusar candidatos tucanos de ligação com a máfia dos sanguessugas veio de um representante da direção do PT em São Paulo. A informação foi passada à Polícia Federal nos depoimentos dos dois intermediários presos na sexta-feira - o empresário petista Valdebran Padilha e o advogado Gedimar Passos.Segundo a PF, eles não revelaram o nome do representante, mas deram uma descrição física detalhada do emissário petista, das circunstâncias do encontro e até das roupas que ele usava na ocasião. Gedimar disse que foi contratado por integrante da Executiva Nacional do PT para checar a autenticidade do material. O PT não comentou neste sábado o conteúdo dos depoimentos.Nota de seu presidente, Ricardo Berzoini, afirma apenas genericamente que o partido não se surpreende com episódios "com o objetivo de conturbar a disputa eleitoral", no momento em que sua candidatura presidencial está "consolidada".Os dois intermediários foram presos num hotel de São Paulo com R$ 1,75 milhão, em notas de dólar e real. Eles tinham agendado encontro com Luiz Antônio Vedoin e o tio dele, Paulo Roberto Trevisan, que trariam dossiê supostamente capaz de relacionar o candidato tucano ao governo, José Serra, e o candidato à Presidência, Geraldo Alckmin, com o esquema de venda superfaturada de ambulâncias a prefeituras.O intermediário Gedimar Passos, que é ex-policial federal, deu uma descrição detalhada do dirigente petista que lhe entregou o dinheiro. Ele e Valdebran Padilha informaram à PF que caberia a eles avaliar a qualidade do material oferecido por Vedoin e também divulgá-lo, visando a prejudicar as candidaturas tucanas. No depoimento, eles contaram que houve dificuldade em levantar o dinheiro e que, inicialmente, Vedoin pediu R$ 20 milhões. Depois de conversação, o negócio teria sido fechado em R$ 2 milhões, segundo Passos.Exploração eleitoralAs ramificações eleitorais do dossiê Vedoin têm ficado mais claras desde a quinta-feira à noite, quando surgiram as primeiras informações de que a revista IstoÉ publicaria entrevista com os donos da Planam acusando Serra e seu sucessor no Ministério da Saúde, Barjas Negri, de facilitar a ação da máfia entre 2000 e 2004. "Na época deles o negócio era bem mais fácil", disse à revista Darci, pai de Luiz Antônio Vedoin.A PF descobriu o plano de vender o material por meio de investigações e escutas, que levaram aos receptadores em São Paulo. Detalhe: um deles, Valdebran, é filiado ao PT, foi tesoureiro da campanha petista à prefeitura de Cuiabá e chegou a ser indicado para diretoria da Eletronorte durante o governo Lula.A investigação da PF sobre o dinheiro apreendido trabalha com várias hipóteses. Uma das alternativas é que pudesse ter vindo de caixa 2 do PT - a Justiça Eleitoral também acompanhará as investigações - e se destinasse à compra do dossiê dos Vedoin. Outra é que a quantia se destinasse a recompensar a entrevista dada pelos Vedoin à IstoÉ - para policiais federais de Mato Grosso, o material apreendido é "velho" e já havia sido divulgado pela mídia. Com o tio de Luiz Antônio Vedoin, foram aprendidos uma fita de vídeo, um DVD, uma agenda e seis fotos.As imagens mostram a entrega de 40 ambulâncias da Planam para prefeituras do Mato Grosso, quando Serra era ministro da Saúde. Algumas fotos também mostram Alckmin. A direção da IstoÉ indicou o redator-chefe, Mário Simas Filho, que fez a entrevista com os Vedoin, para falar sobre o caso ontem. Ele afirmou não ter "a menor idéia" se haveria um esquema entre Vedoin e o PT e que, jornalisticamente, fez seu trabalho, reproduzindo o que foi dito. "Sei que não participei de nenhum esquema", afirmou.(colaboraram Bruno Winckler, Vannildo Mendes e Paulo Baraldi)

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