Negros devem ser beatificados pelo Vaticano

O Brasil deve ter brevemente dois religiosos da raça negra beatificados pelo Vaticano: a escrava Francisca de Paula de Jesus, conhecida como "Nhã Chica", de São João Del Rey, e o ex-escravo e padre Francisco de Paula Victor, de Campanha, ambas cidades mineiras.Os processos já foram concluídos no Brasil e devem ser analisados nos próximos meses pela Congregação Canônica Histórica, primeira etapa no Vaticano do longo caminho a ser percorrido até a beatificação. As informações são do postulador canônico, o padre italiano Paolo Lombardo, frade franciscano que atua como uma espécie de "advogado dos candidatos a santo" e está em Salvador pesquisando a vida de Irmã Dulce, outra religiosa brasileira com grandes chances de ser beatificada. Lombardo ressalta as vidas de "Nhã Chica" e padre Victor. "Foram muito interessantes e recheadas de fé", declarou, informando que a escrava era uma leiga, analfabeta, que morreu em 1895 tendo dedicado sua vida à caridade. "No seu processo há um possível milagre atribuído a ela, uma cura na cidade de Caxambu. Mas num processo de beatificação, o Vaticano não considera em primeiro lugar os milagres, antes disso analisa a vida e a virtude da pessoa", disse. O padre Victor, que morreu em 1905, foi escravo e depois de alforriado tornou-se padre, realizando importante trabalho de evangelização na cidade mineira de Três Pontas, onde foi pároco.Responsável por 9 dos 30 processos de brasileiros que postulam a beatificação, Lombardo informou que "seus candidatos" mais adiantados são os gaúchos padre Manuel Gomes Gonzalez e o leigo Adílio Doronch, martirizados em 1925, na cidade de Três Passos, durante a Revolução Caudilhista. O motivo de terem sido mortos: queriam sepultar os mortos e cuidar dos órfãos das duas facções que se enfrentaram na revolução. "Esses processos já passaram pela análise da Congregação Canônica Histórica do Vaticano que os deferiu e agora serão tratados por outros colegiados da Igreja", explicou padre Lombardo. "O Vaticano analisa centenas de processos de todo o mundo e por essa razão não podemos estabelecer prazos", observou.

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