Neguinho emociona o Sambódromo

Puxador de samba da Beija-Flor há 33 anos e lutando contra um câncer, ele se casou instantes antes do desfile

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

24 Fevereiro 2009 | 00h00

Intérprete da mesma escola há 33 anos, Neguinho da Beija-Flor decidiu unir seus dois amores na hora de se casar. Escolheu a Marquês de Sapucaí para oficializar a união com Elaine Reis, sua companheira há quatro anos. A cerimônia, que começou às 2h50 de segunda-feira, no trecho inicial do Sambódromo, e só pôde durar sete minutos, foi realizada diante de milhares de espectadores. A alegria não era só pelo casamento sui generis. Neguinho, que luta contra um câncer de intestino, estava prestes a puxar o samba-enredo da Beija-Flor pelos 82 minutos seguintes - muita gente, inclusive ele mesmo, chegou a pensar que a quimioterapia o deixaria fraco demais para cantar o enredo sem pausa. "É o dia mais importante da minha vida, é meu dia de graça", disse Neguinho, de 59 anos. Narrado ao microfone pelo comunicador Jorge Perlingeiro - o mesmo que lê as notas das escolas na apuração dos desfiles - e celebrado por um pastor e por um juiz de paz, o casamento ocorreu pouco antes de a Beija-Flor se apresentar, e com a bateria pressionando, numa espécie de marcha nupcial em ritmo de samba. Uma madrinha surgiu fantasiada de Cleópatra, pronta para desfilar. O presidente Lula, convidado para ser padrinho, não compareceu por orientação de sua segurança. Mas o casal estava exultante, ao lado da filha Luísa Flor, de 5 meses. "Ele sugeriu o casamento aqui e topei na hora. Era um sonho dos dois", contou Elaine. Como havia prometido nos ensaios, o sambista não esmoreceu na Sapucaí. Antes do grito de "olha a Beija-Flor aí, gente!" e de agradecer aos que rezaram por sua recuperação, ele fez questão de mencionar a campanha Laços da Esperança, de conscientização sobre a importância do diagnóstico precoce do câncer. "Independentemente do resultado, sou um campeão da vida", afirmou, na dispersão, cansado e chorando. Ao término do desfile, ele explicou que compreendeu a ausência dos padrinhos mais ilustres, Lula e dona Marisa, na hora do "sim" - poderia gerar muito tumulto, disse. O presidente e a primeira-dama estavam no camarote do governador Sérgio Cabral, no extremo oposto da Sapucaí, e preferiram saudar Neguinho quando o carro de som passou. Dona Marisa fez mais: desceu à pista e jogou beijos. "Queria ter ido. Ele é meu amigo!" Neguinho cantou na festa da posse em 2003 e desenvolveu uma relação de carinho com o casal. Depois de desfilar, o puxador de samba foi com a mulher ao camarote do presidente. Entre os que testemunharam a cerimônia, estavam o presidente da Beija-Flor, Farid Abraão David, a integrante da escola vestida de egípcia e a ex-ministra Benedita da Silva com o marido, o ator Antonio Pitanga. Casada há 15 anos, Benedita saiu toda sorridente: "Ganhei o buquê!" Terminada a cerimônia, a mesa instalada no "primeiro recuo da bateria Jamelão", com uma bandeira azul e branca da agremiação de Nilópolis em cima, foi imediatamente retirada para a entrada da bateria. O diretor de carnaval, Laíla (outro padrinho que escolheu ficar de fora), já estava indócil: era hora de o show começar.

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