Nem a chegada da polícia evitou que lojas fechassem em SP

Mesmo com cerca de 200 policiais militares rondando as principais ruas da Baixada do Glicério, nenhum comerciante se atreveu a contrariar a ordem de supostos criminosos ligados a assaltantes mortos na noite de anteontem pela Rota. Apenas um restaurante na Rua do Glicério e o Sindicato dos Trabalhadores no Ramo da Construção Civil (Sintracon), na Rua Conde de Sarzedas, desobedeceram ao toque de recolher imposto logo após a ação da Rota. O comandante do 7.º Batalhão da Polícia Militar, coronel Noel Castro, atribuiu o fechamento a boataria. "Não é toque de recolher, mas ameaça feita por telefone que passa de um comerciante para outro." Boato ou não, os comerciantes preferiram não arriscar. "O problema não é hoje, que está cheio de polícia aqui. O difícil vai ser amanhã, daqui um mês. O cara marca quem não obedeceu e, depois, como fica?", reclamou o dono de uma farmácia. "Um cara passou e disse que era melhor não abrir, mas não falou o que aconteceria", disse o dono de uma oficina na Rua Mário Margarido. "Como ninguém abriu, eu não abri também." Ele afirmou conhecer a pessoa que deu o aviso. "É desses aí que estão no ´movimento´, você sabe quem é, mas não sabe o nome." Outros fecharam os estabelecimentos por "respeito aos mortos". "Eram caras considerados, acho justo ficar de luto", disse o dono de um estacionamento. De manhã, todas as lojas da Rua do Glicério e algumas na Conde de Sarzedas ainda estavam abertas. Mais tarde, conforme o policiamento se tornava mais intenso e a população encontrava padarias e farmácias fechadas, outros comerciantes foram fechando, num efeito dominó. "Decidimos fechar enquanto os outros estiverem fechados por segurança", afirmou um gerente do Supermercado Barateiro. O medo fez algumas mães buscarem os filhos mais cedo na Escola Municipal Duque de Caxias. A Igreja Nossa Senhora da Paz chegou a ser fechada. Um cartaz em espanhol se referia a "motivos de força maior". O padre Giuseppe Bortoloto disse que a igreja ficou fechada por pouco tempo, mas garantiu que celebraria a missa das 19 horas. "Vamos pedir paz." O presidente da Associação Comercial de São Paulo, Alencar Burti, disse que esse tipo de ação traz constrangimento aos comerciantes. "É o tipo de coisa que abala a segurança. É um problema que tem de ser atacado na raiz, antes que se espalhe." O comerciante José Valdir Alves foi o único a manter as portas abertas. "Não recebi nenhuma ameaça." O presidente do Sintracon, Antonio de Sousa Ramalho, recebeu um "aviso" no celular às 5h30 de ontem. "Ligaram a cobrar, dizendo que era melhor não abrir o sindicato", contou. Ramalho contrariou as ameaças e manteve as portas abertas durante todo o dia. "Posso ter preocupação, não medo."

Agencia Estado,

08 de novembro de 2002 | 07h58

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