Nem mesmo PMs são unânimes em relação a tiros

Apenas o depoimento de Nayara, que deverá ocorrer amanhã pela manhã (mais informações na página C5) resolverá a principal dúvida que resta para a conclusão do inquérito policial sobre a tragédia do ABC, aberto no 6º Distrito Policial de Santo André: houve ou não um disparo antes da invasão do apartamento da CDHU pela Polícia Militar? Nem mesmo os agentes que participaram da ação são unânimes em relação a isso. O Jornal Nacional, da Rede Globo, teve acesso ontem aos depoimentos. Quatro dos cinco PMs que invadiram o local confirmaram o tiro inicial. A polícia ainda ouvia ontem vizinhos da família Pimentel para detalhar o que ocorreu na sexta-feira, a partir das 18 horas. A Corregedoria da PM já abriu uma investigação sobre os procedimentos adotados pelo Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate).O comando do grupo de invasão era do tenente Paulo Sérgio Schiavo. Ele declarou que foi o último a entrar e que foi quem tirou Nayara do apartamento. Segundo o tenente, por volta das 2 horas (não fica claro se da madrugada ou da tarde) de sexta-feira, Alves havia feito um disparo dentro do apartamento e ficou acertado que, caso isso se repetisse, haveria a invasão. Um tiro às 18 horas causou o ataque, conforme o comandante.Nos depoimentos divulgados pela Rede Globo, o soldado Daylson Moreira Pereira relata que foi o primeiro a entrar e foi recebido a tiros. Já o sargento Mário Magalhães Neto atirou com a espingarda calibre 12, carregada com balas de borracha, contra Alves, mas não conseguiu atingi-lo. Os agentes não relataram ao delegado terem visto o rapaz atirando contra as jovens. Alves teria, no entanto, disparado seguidas vezes contra os PMs - chegando a atingir o escudo de um deles. Após descarregar a arma, o jovem levantou os braços e se rendeu.VIZINHOSNo dia da tragédia, após o resgate das jovens Eloá e Nayara e da prisão de Alves, o Jornal da Tarde ouviu os vizinhos. A esteticista Maria Aparecida Mariano da Costa, de 41 anos, moradora do bloco 20, ao lado do bloco 24, onde Eloá ficou em cativeiro, contou que ouviu o barulho de um disparo antes da explosão da bomba que arrombou a porta do apartamento onde estavam Alves e as duas reféns. "Estava cozinhando quando ouvi um tiro. Em seguida, ouvi a explosão e mais três disparos. Corri para a janela, mas fiquei com medo."Vizinhos de outros blocos não ouviram o primeiro disparo. Só a explosão e, em seguida, os outros três tiros. Eles disseram que viram os policiais jogarem a bomba, invadirem o apartamento e cercarem Lindembergue. "Ouvia os policiais gritando que as meninas estavam feridas", disse uma das moradoras. A polícia começou a ouvir ontem os vizinhos, mas não divulgou nomes nem o teor das declarações.Segundo o delegado Luiz Carlos dos Santos, seccional de Santo André, Alves responderá por homicídio doloso (intencional), cárcere privado de quatro pessoas, duas tentativas de homicídio, além de cárcere privado e periclitação de vida (expor alguém a perigo).A polícia já tem certeza de que os tiros que mataram Eloá e feriram Nayara foram disparados pela arma calibre 32 de Alves. Segundo Santos, além de atirar em Eloá e Nayara, ele disparou, na segunda-feira, no início do seqüestro, contra um sargento da PM, que não foi atingido.

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