Nem parece que falta só um mês

Nem parece que falta só um mês

Clima de eleição ainda não contagia as ruas das grandes cidades e os eleitores

, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2010 | 00h00

Você que ainda não se animou a colar adesivos em seu carro, a empunhar bandeirinhas de seu candidato ou a encarar caminhadas no corpo a corpo com ele. Você não está sozinho. A menos de um mês das eleições, o clima de campanha parece não contagiar as ruas como em outros anos.

São poucas as manifestações espontâneas de apoio a esse ou aquele aspirante a cargos em 2011. E mesmo as pagas parecem ter diminuído.

O fenômeno tem explicações. Em 28 anos, desde as primeiras eleições diretas para governadores ainda sob o regime militar, em 1982, o Brasil passou por 14 eleições - sem contar o plebiscito sobre o parlamentarismo, em 1993, e o referendo do desarmamento, em 2005. O brasileiro voltou a se apropriar do voto, acostumou-se ao processo eleitoral novamente. "Ninguém aguenta se manter ligado sempre. Faltando uns 15 dias para a eleição o clima esquenta", diz Nelson Biondi, publicitário que trabalha com marketing político desde 1992 e atuou na campanha de José Serra, em 2002.

Além disso, o ambiente fortemente ideológico que havia em 1989, por exemplo, não existe mais. "Os partidos, inclusive o PT, forte em sua militância, se profissionalizaram", explica Fernando Antonio Azevedo, professor de ciência política da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Assim, a arena política migrou das ruas para a televisão, o rádio e a internet.

Talvez uma disputa mais acirrada, com pesquisas que mostrassem candidatos próximos nas intenções de votos, pudesse motivar o eleitor a se engajar, acredita o professor. "Mas hoje o continuísmo é forte. Mesmo nas corridas estaduais não há cenários tão competitivos."

Se a briga não empolga tanto nas eleições majoritárias, nas proporcionais, cujos votos costumam ser decididos na última hora pelo eleitor, a situação é ainda mais crítica. "O Parlamento vive uma crise enorme. Algumas ocorrências na administração pública levaram a uma descrença generalizada nos valores políticos", avalia Arnaldo Madeira, deputado pelo PSDB candidato à reeleição e veterano de campanhas eleitorais.

O pouco tempo que candidatos proporcionais têm de TV acaba exigindo mais panfletagem e corpo a corpo com os eleitores. "Mas é difícil atingir pessoalmente 30 milhões de pessoas. Os candidatos acabam optando por se fixar em nichos e suas campanhas não ficam tão visíveis."

Já Cândido Vaccarezza, deputado do PT e também candidato a mais um termo, credita a falta de empolgação nas ruas a um fator econômico. "O pessoal que trabalha nas campanhas está mais caro, porque as pessoas estão empregadas e ganham mais." Ele lembra que as regras eleitorais proibiram algum dos recursos de relação direta com o eleitor, como os showmícios e os brindes. "É muito bom que isso esteja proibido, mas a ausência desses elementos pode dar a impressão de um clima frio."

O marqueteiro Biondi acrescenta que a Lei Eleitoral, somada à Lei Cidade Limpa, inibe os candidatos a usar até mesmo o que é permitido - vale lembrar que a Lei Cidade Limpa não vale durante as eleições. "Mas nenhum deles quer sujar as ruas e ficar com a fama." As campanhas fortemente baseadas em resultados de pesquisa e no marketing político acabaram com as propostas ideológicas, diz Azevedo, da UFSCar. "Uma consequência é a frieza nas ruas, mas não é a única. O debate eleitoral está mais fraco."

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