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Nem polícia impede expulsão de moradores pelo tráfico no Rio

Seis dias depois de iniciada a guerra entre traficantes de Parada de Lucas e Vigário Geral, na zona norte da cidade, 120 integrantes de 8 batalhões da Polícia Militar ocuparam nesta sexta-feira as duas comunidades e as favelas vizinhas de Furquim Mendes e Dique. Apesar da presença da polícia, o dia foi tenso: moradores de Vigário Geral expulsos pelos invasores da facção criminosa Terceiro Comando foram afugentados à bala, quando tentavam retirar pertences de casa.Durante a operação, um policial foi ferido, e um traficante, morto. A polícia apreendeu dois fuzis, seis granadas, uma bomba caseira e papelotes de maconha e cocaína. No meio da tarde, uma pista da avenida Brasil, uma das principais vias expressas do Rio, ficou fechada por cerca de dez minutos por causa de uma barricada montada por moradores de Parada de Lucas, segundo a polícia, a mando de traficantes.A ocupação policial ocorreu um dia após a organização não-governamental Anistia Internacional ter divulgado um comunicado alertando para o risco de "um banho de sangue" na região por causa da disputa do tráfico nas duas comunidades. Secretário Estadual de Segurança Pública em exercício, o delegado Marcelo Itagiba não comentou o teor do alerta. Ele assegurou que a PM vai estar presente nas favelas o tempo necessário para "levar tranqüilidade para os moradores". Sobre os moradores expulsos, disse que eles devem procurar a polícia e apontar as casas invadidas. "Nós iremos incursionar, expulsar e prender todos os traficantes que ali se encontrarem", garantiu.Perguntado sobre a demora da PM para ocupar a área, Itagiba disse que os policiais estão atuando em Parada de Lucas e Vigário Geral desde sexta-feira passada e explicou a tática adotada pela corporação. "É um trabalho progressivo no qual se faz incursões, delimita o terreno, faz a sua proteção no entorno e a sua ocupação. É uma questão de tática operacional", detalhou. Mas, só ontem, chegou-se à fase da ocupação, pois a Anistia e moradores ouvidos pelo Estado declararam que, até então, os PMs mantinham-se apenas nas entradas e saídas das favelas, realizando o que o próprio secretário definiu como "cinturão protetor".Fugindo de casaCom um ventilador na mão e duas sacolas na outra, uma moradora de Vigário Geral, que deixou a favela com a roupa do corpo, no sábado passado, aproveitou a presença da polícia para pegar parte do que deixou em casa. Ela está abrigada na creche Barbosa Lima Sobrinho, na favela do Dique, junto com cerca de outras 100 pessoas também expulsas da comunidade, até então dominada por traficantes do Comando Vermelho. "Não sei até quando a polícia vai ficar aí dentro. Peguei logo e o que deu e vou voltar para a creche, onde deixou meus dois netos dois filhos", disse ela, que não se identificou.No início da tarde, após estampidos de tiros, vários moradores subiram, correndo, a passarela que separa a Vigário Geral. Eles afirmaram ter sido afugentados pelos traficantes invasores e reclamaram que a polícia não estava ocupando pontos mais distantes dos acessos à favela. "Não tenho como tirar minhas coisas, pois minha casa é mais lá pra dentro, onde a polícia não vai. Vou voltar para a creche", disse um morador, que também não quis dar o nome.O desespero também estava estampado no rosto de um casal que mora, há mais de 20 anos, em Vigário Geral. Chorando, a mulher contou que não tem qualquer relação com o tráfico de drogas, mas decidiu abandonar a casa e ir morar na casa da mãe, em Magé, porque a "situação não tem mais jeito". "Trabalho como auxiliar de limpeza e meu marido, conserta aparelhos de ar-condicionado. Trabalhamos aqui do lado, mas vamos embora porque ninguém pode mais sair ou entrar aqui na favela. Eles (os traficantes) estão entrando na casa da gente, estuprando mulheres. Mas a polícia não fica aqui. Não posso confiar neles", desabafou ela, enquanto terminava de transportar para uma velha caminhonete tudo o que havia dentro de casa.Outros dois moradores, já idosos, dizem que estão em Vigário Geral há mais de 50 anos e que, apesar de deseperados com a situação, não vão abandonar suas casas. "Eu sou um homem trabalhador. Hoje, aposentado. Nunca tive qualquer envolvimento com esse tipo de coisa, e nem a minha família. Por que eu tenho que sair daqui, de um lugar que ajudei a construir, a levantar, para dar lugar para bandido", perguntou ele, em um misto de revolta e comoção.

Agencia Estado,

08 de outubro de 2004 | 19h34

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