Nem trem, nem ônibus, nem carro. Maioria ainda vai é a pé

Mas, na década, deslocamentos feitos em ônibus cresceram três vezes mais do que em automóveis

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

03 de abril de 2009 | 00h00

O morador da Região Metropolitana de São Paulo utiliza mais o próprio carro do que os ônibus, mais os ônibus do que o metrô, mais o metrô do que os trens. Também se desloca cada vez mais em motocicletas, em veículos escolares, em bicicletas. E cada vez menos nos táxis. Mas para o morador do maior conglomerado urbano da América Latina, a julgar pelo número de viagens realizadas num dia, o meio de transporte mais comum continua sendo o mais simples - esse morador ainda anda, e muito, a pé.Os números da última pesquisa "Origem e Destino" permitem entender essa dinâmica. A partir deles se percebe, por exemplo, que o reinado do carro individual está enfraquecendo (mais informações na página ao lado). Em 2007, foram 10,4 milhões de viagens de carro diárias pela região metropolitana - um aumento de 8,3% em relação à pesquisa anterior, de 1997, quando o número de viagens por dia foi de 9,6 milhões.Trata-se, porém, de uma tendência de aumento muito inferior à ascensão verificada no número de viagens de ônibus, o transporte coletivo mais utilizado. Em 2007, foram cerca de 9 milhões de deslocamentos diários de ônibus, ante 7,2 milhões de viagens por dia em 1997 - aumento de 25%, três vezes superior ao verificado nas viagens individuais de carro. Isso tudo, considerando aumento de 16% na frota de automóveis.Para economistas ouvidos pelo Estado, a explicação está no aumento da oferta de emprego (de 6,9 milhões de pessoas ocupadas em 1997 para 9 milhões, dez anos depois). "Como temos base larga na pirâmide de renda, quando a população dessa faixa consegue melhorar um pouco o faturamento mensal o transporte coletivo já se torna possível. A dificuldade é muito maior, por exemplo, para a população que está acima conseguir comprar um carro", explica o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Alexandre Gomide, ex-diretor da Secretaria Nacional de Transporte e Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades. "Além disso, só se desloca quem tem o que fazer, onde trabalhar."Ir ao trabalho e voltar é, de fato, a razão maior das viagens - envolve cerca de 17 milhões (44,5%) dos 38,2 milhões de deslocamentos (motorizados ou não) por dia. Educação vem logo atrás, como motivação para 13 milhões de viagens (34% do total). Notam-se, também, algumas surpresas, nos hábitos de deslocamento do morador da região metropolitana: como explicar, por exemplo, que o número de viagens a lazer tenha diminuído nesse espaço de dez anos ou que o número de deslocamentos destinados a compras tenha permanecido no mesmo patamar, com aquecimento da economia e tudo? "Por segurança, ou para não enfrentar congestionamentos, as pessoas podem estar preferindo o lazer doméstico. As casas, hoje, estão realmente mais confortáveis", afirma Gomide. "Até mesmo para compras pelo serviço eletrônico."Os números da pesquisa redescobrem, também, a figura do pedestre. Dos 38,2 milhões de deslocamentos diários, exatamente um terço (12,6 milhões) é realizado, simplesmente, a pé. "Mostra a importância de oferecer boa infraestrutura, com sinalização e espaço adequados, a quem circula pela cidade", avalia o consultor Flamínio Fichmann, especialista em engenharia de tráfego. A OD também registra que a hora do almoço é o momento em que os pedestres reinam mais absolutos nas ruas, quando suas viagens correspondem, sozinhas, a 50% do total de deslocamentos.MOTOSVeículo mais notado na metrópole e seus arredores, a motocicleta cumpre seu papel na pesquisa: trata-se do meio de transporte que mais registrou aumento (388%) no espaço de dez anos - de 145.651 viagens em 1997 para 710.638, em 2007. "Reflete o que vemos nas ruas", afirma Fichmann. "São milhares de pedestres atravessando as faixas, milhares de motos cruzando as vias."

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