Neocomunismo mistura Marx com celebridades

A 'linha Orlando Silva' se impõe no PC do B, leva às urnas Netinho e Protógenes e amplia militância em 69% em 4 anos

Malu Delgado, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

 

Podemos dar um salto muito importante, afirma o ministro Orlando Silva 

 

"Gente, isso tudo é muito bonito, mas tem que dar um jeito de explicar para o povão." Numa das rodas de conversas do mais antigo partido político do País, o Partido Comunista do Brasil (PC do B), emerge a voz e a opinião de Netinho de Paula, candidato do partido ao Senado.

Segundo relatos dos velhos comunistas sobre seus encontros ideológicos, figuras como Netinho personificam a mudança gradual buscada pelo partido - cujas raízes remontam ao velho Partidão (o PCB), criado há 88 anos. A ordem é sair em busca de neocomunistas.

A filiação (em 2008) e a candidatura de Netinho (em 2010) explicitam o caminho alternativo do PC do B que, nestas eleições, lança 10 nomes ao Senado, uma candidatura a governo estadual (Flávio Dino, no Maranhão) e centenas de candidaturas a deputado federal. Só em São Paulo, são 80 candidatos a deputado estadual e 10 a federal, além da de Netinho ao Senado. Em 2006, no Estado, foram lançados apenas 12 estaduais e dois federais.

O músico e apresentador de TV, uma celebridade entre os eleitores, é um dos quatro candidatos com chances reais de se elegerem ao Senado, segundo prognósticos de dirigentes do PC do B. Além dele, estão bem cotados Vanessa Grazziotin (AM), Edivaldo Magalhães (AC) e Eduardo Bomfim (AL).

O crescimento do PC do B não se revela apenas no volume de candidaturas: em número de militantes, o partido também está mais turbinado. Saltou de 187.247 filiados em 2006 para 268.924 em 2010, um crescimento de 69%. Em São Paulo, o PC do B aumentou em 32% as filiações das últimas eleições presidenciais até agora, passando de 41.455 para 54.784 filiados. Além disso, os militantes, categoria à parte dos filiados, eram 102.332 em 2009, ante 69.638 em 2005.

"O PC do B tem procurado filiar lideranças na área popular, acadêmica e sindical. Lideranças que levam à renovação na política", afirma o presidente da sigla, Renato Rabelo, em seu terceiro - "e certamente o último" - mandato. Entre ela, o presidente da legenda destaca Netinho, o ex-delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz, candidato a deputado federal, e a cantora Lecy Brandão, que concorre à Assembleia Legislativa paulista.

Quando questionado sobre as clássicas lições de Marx e Lênin e a doutrinação ideológica dos novos membros, Rabelo explica que há duas categorias no PC do B: os filiados, que cumprem seus deveres políticos, e os militantes, cujo ingresso é essencialmente relacionado à formação ideológica. "Para nós, o Netinho é um exemplo de liderança popular capaz de compreender a linha política do PC do B, de assimilar os princípios do partido. Ele acompanha nossos seminários, tem uma enorme capacidade de assimilação."

Fila. A força de Netinho no PC do B está intimamente relacionada à influência do ministro dos Esportes, Orlando Silva. Foi do ministro a ideia de fazer a filiação, elegê-lo vereador e, agora, lançá-lo ao Senado. A determinação de Orlando Silva deixou para trás da fila alguns comunistas históricos, como o deputado federal Aldo Rebelo, até então visto como um nome natural para disputar o Senado. A vaga também foi disputada pelo neófito Protógenes.

Mas a palavra de Orlando Silva, que dois anos antes já havia prometido espaço a Netinho, acabou prevalecendo e foi fundamental para definir o xadrez eleitoral do PC do B. "Hoje, é o Orlando que manda no partido. Ele é fortíssimo", afirmou um dirigente do PT.

"A composição e o equilíbrio da chapa aconselhavam minha candidatura a deputado e a de Netinho ao Senado", afirmou Aldo Rebelo, sem entrar em polêmica. Protógenes admite que abriu mão do cargo pretendido devido às pressões do cantor-apresentador.

Orlando Silva tornou-se um ministro poderoso na Era Lula. Apesar de ter entrado no governo apenas no segundo mandato, ele foi capaz de estruturar o PC do B em vários Estados a partir da sua pasta. Filiações e cargos misturaram-se e, hoje, o Ministério do Esporte é conhecido como o "ministério do PC do B".

Buchada. Ex-presidente da UNE, Orlando Silva conseguiu, segundo conta Renato Rebelo, filiar ao partido uma nova geração de políticos, incluindo inúmeros desportistas. "O Orlando tem um papel político forte no Brasil inteiro. Antes dele, o PC do B não tinha influência nesta área (o Ministério dos Esportes). Estruturamos um ministério que ganhou influência e prestígio. O presidente Lula tem uma grande confiança nele. É uma revelação importante", disse o presidente do PC do B.

No bairro Jardim Felicidade, Aldo Rebelo vai comer buchada. "Só pode ter esse nome por causa da generosidade do nosso povo", diz ele. Aldo faz uma campanha muito distinta da de Protógenes e Netinho. Não está nos comícios badalados pelo Estado, nem nas caminhadas populares. Costuma ir para garagens de ônibus nas madrugadas, quando os motoristas trocam os turnos. Por conta da popularidade entre sindicatos dos metroviários, taxistas, entre outros, é saudado nas ruas e chamado pelo nome pelos motoristas.

Aldo escuta calado as perguntas sobre as transformações do PC do B. Fala pouco, não expõe críticas nem discordâncias explícitas com o novo ritmo da sigla. "Se o partido não tiver novos filiados, se acaba", limita-se a comentar. Sobre a doutrina partidária, que não é exigência nestas novas filiações, diz que o princípio do PC do B é a democracia popular, e que as teses, ao longo do tempo, se renovam. "O socialismo é a busca da democratização profunda. Esse é nosso postulado básico."

"Ficamos muito tempo com uma participação tímida no processo eleitoral no período pós-redemocratização. O PT entrou de forma muito mais decidida na participação eleitoral, com candidaturas majoritárias. O PC do B ficou restrito a candidaturas proporcionais", explica Nádia Campeão, presidente do PC do B de São Paulo.

Tradição. Segundo ela, a interlocução do PC do B com movimentos sociais e sindicais, uma tradição da esquerda, não era suficiente para enfrentar as transformações do novo mundo. "No Brasil, os eleitores votam em pessoas. O PC do B é um partido político. Precisamos quebrar a ideia de que é um partido estritamente ideológico", afirmou.

Sobre os novos filiados, ela é só elogios. Admite, porém, que se trata de um processo novo, que exige adaptações dos dois lados. "Nós aprendemos muito com eles", diz a presidente da seção paulista, referindo-se especificamente a Netinho e Lecy Brandão.

Mas ela adverte que "ter identidade política com o partido é um quesito básico. Se não tiver, não prospera". Para a ex-atleta, "é preciso levar em conta as opiniões do partido já estabelecidas". Até o momento, garante, os neocomunistas têm-se adaptado muito bem às ideias que, durante tantas décadas, marcaram a vida do velho PC do B.

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