Russian Defense Ministry Press Service via AP
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Neonazismo e Ucrânia: o que os dois temas do momento têm em comum?

Em 2013, durante a Revolução da Euromaidan, isso se intensificou e virou quase que um movimento, mesmo

André Fran, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2022 | 10h00

Desde 1990, o povo ucraniano tem por hábito derrubar símbolos do ex-regime soviético espalhados pelo país. Principalmente as clássicas estátuas de Lênin, o fundador da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Em 2013, durante a Revolução da Euromaidan, isso se intensificou e virou quase que um movimento, mesmo. Com nome e tudo: Leninopad, na tradução literal "A Queda de Lenin". O jornalista Stephanie Gobert, um jornalista suíço residindo na Ucrânia, resolveu registrar esse momento. Ele entrava em armazéns abandonados, invadia terrenos baldios e rastreava em garagens abandonadas as imensas esculturas derrubadas e as cabeças de pedra decapitadas do pai da revolução russa. Quando conversei com ele na praça Bessarabska, no centro de Kyiv, pude compreender melhor o quanto a luta do povo ucraniano com seu passado representava o momento presente do país: "De um lado vocês tem aqueles que querem esquecer um capítulo terrível de sua história, de outro aqueles que acham que devemos preservá-la para que não se repita. Mas não é só isso, nos dois grupos você tem as alas mais moderadas e as mais radicais, que parecem estar prevalecendo nessa disputa ideológica." Eu estava no país para contar a história da Euromaidan, a série de protestos na capital que culminou na derrubada do então presidente, Viktor Yanukovich. As imagens que marcaram o mundo foram as da violência dos protestos, com mais de uma centena de mortos entre manifestantes, policiais e forças paralelas do governo. A raiz desse sangrento embate era o alinhamento de Yanukovich com Moscou enquanto o povo da capital queria estar mais próximo da União Europeia. O contrário do que acontecia na região mais ao leste do país, bem mais identificada com a Rússia e onde rebeldes separatistas lutam contra o exército ucraniano.

Na esteira desses eventos, Putin resolveu anexar a Ucrânia, processo feito da noite pro dia, sem dar um tiro e com ampla aprovação da população. Mas, obviamente, de forma completamente autoritária e em desafio ao consenso da comunidade internacional. O sentimento anti-Rússia na Ucrânia só cresceu.  E, logo em seguida, veio a série de leis que a imprensa mundial resolveu taxar de "leis anti-comunismo" e que renderam manchetes mundo afora como "Comunismo é proibido na Ucrânia" e "Ucrânia decide igualar o comunismo ao nazismo".  Na verdade, o que aconteceu foi que o presidente Petro Poroshenko resolveu se posicionar como uma antítese de seu antecessor e, sem consulta popular ou aprovação do parlamento, definiu que seriam proibidos no país símbolos, imagens, nomes de ruas e até de cidades que remetessem ao período de domínio soviético. Mas… (sempre tem um mas, né) Ao mesmo tempo, as leis homenageavam grupos que lutaram pela independência da Ucrânia, muitos deles inspirados no líder de extrema-direita, Stepan Bandera, que atuaram ao lado de nazistas e promoveram massacres de poloneses no século XX. 

De volta a 2014, eu conversei também com uma manifestante que fiocu conhecida durante os protestos da Euromaidan por participar ativamente nos violentos protestos nas ruas de Kyiv (se é que vocês me entendem). Ela preferiu manter seu nome no anonimato, obviamente, mas não se esquivou de contar que, entre os populares que encaravam de peito aberto a polícia e os impiedosos membros das forças paralelas do governo Yanukovich, havia um grande contingente de nacionalistas, grupos extremistas e de inspiração fascista. Alguns dos mais presente ns combates eram inclusive membros de torcidas organizadas dos times locais como o Dynamo de Kyiv. Acostumados a brigas e confusões, eles formavam a linha de frente no combate e protegiam outros manifestantes. Ganharam muita moral com isso. Outros tantas facções de perfil semelhante se uniram e formaram o Pravyi Sektor, uma organização de grupos radicais formados por patriotas de extrema-direita da Ucrânia e considerada neonazista pelo governo russo. Outras organizações semelhantes, como o Batalhão Azov, são tidos como grupos terroristas por Estados Unidos e associações globais de defesa dos direitos humanos. Essa turma ganhou muito reconhecimento nesse período. Mas… (eu não falei que sempre tem um mas?) eles não quiseram parar por aí. Com a notoriedade conquistada, se lançaram oficialmente na política ucraniana formando um partido e conquistando cargos no governo. Hoje, a Ucrânia se encontra em meio a ameaças de guerra e esses grupos radicais, que seguiram radicalizando ucranianos através da política, prometem treinar civis para pegar em armas e defender a nação em caso de uma invasão russa. Em muitos casos, senhores e senhoras de idade, presas fáceis para um discurso ultraconservador e radicalizados a ponto de acreditarem que podem pegar em armas agora para defender seu país em uma possível invasão russa. Qualquer semelhança...

A bandeira escolhida por esse pessoal era uma versão adulterada do tradicional estandarte azul e amarelo do símbolo nacional do país. Eles dizem que essa é a versão "sangue e solo" da oficial. "Sangue e solo" é um lema nazista que faz menção à superioridade racial e territorial. E foi o símbolo usado por aquele antigo exército insurgente da Ucrânia, que se aliou a Alemanha nazista em diversos momentos. A tal bandeira já apareceu aqui no Brasil em meio a manifestações bolsonaristas, como a da Avenida Paulista, em maio de 2020. E esses recentes laços Brasil-Ucrânia, da pior espécie, não ficam por aí. A ativista Sara Winter, ex-bolsonarista radical, dizia ter sido treinada na Ucrânia (não se sabe exatamente em que). O deputado federal Daniel Silveira, preso por ameaçar ministros do STF, postava em suas redes palavras de ordem como "é hora de ucranizar o Brasil". O deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, já postou comercial das Forças Armadas da Ucrânia em seu Twitter e viajou ao país fazendo lobby pela compra de armas.

Legitimar para ganhos politicos: discursos de ódio, extremismo e até regimes que cometeram crimes contra a humanidade, pode ser um tremendo tiro (perdão pelo trocadilho) no pé. Acho que agora passou a fazer mais sentido o que uma ex-república soviética atualmente no centro de disputa envolvendo duas das maiores potências do planeta tem a ver com nosso combalido Brasil, né? Quer dizer, sentido não faz, mas deu pra entender melhor de onde vem essa maluquice toda de "ucranizar o Brasil". Fia valendo o senso comum entre guerrilheiros, paramilitares, estrategistas políticos e cientistas sociais: conhecer os seus inimigos é o primeiro passo para derrotá-los. É preciso entender as raízes do neonazismo brasileiro para extirpá-lo mais uma vez da nossa realidade e do mundo.

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