Neschling entra na Justiça contra a Osesp

Maestro estaria tentando receber multas por rescisão contratual; ele também questiona contrato de trabalho do substituto, Yan Pascal Tortelier

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2009 | 00h00

Cerca de dois meses depois de ser demitido pela Fundação Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, o maestro John Neschling rompeu o silêncio - e o fez pela Justiça. Na manhã de quinta-feira, protocolou na Delegacia Regional do Trabalho de São Paulo um pedido para que seja averiguado se seu substituto, o francês Yan Pascal Tortelier, tem contrato legal de trabalho no Brasil, exigindo que medidas sejam tomadas contra a orquestra caso sua atuação seja ilegal.A informação foi confirmada pela Assessoria de Imprensa do maestro, que afirmou ainda que ele resolveu entrar também com processo contra a Fundação Osesp para tentar receber na Justiça as multas relativas à rescisão de seu contrato, uma vez que não teria recebido até agora da entidade uma posição oficial sobre o assunto.Procurado pelo Estado, o maestro, que está no interior de São Paulo, não quis dar entrevista. Já a Fundação Osesp, por meio de nota oficial enviada ontem, informou que "obteve junto ao Ministério do Trabalho toda a documentação necessária para que o maestro Yan Pascal Tortelier trabalhe regularmente no Brasil". Sobre o processo trabalhista movido pelo maestro, a entidade diz que ainda não recebeu nenhuma notificação oficial da Justiça.A demissão de Neschling, em dezembro, provocou um furacão na vida musical brasileira. O maestro assumiu a Osesp em 1997 e, de lá para cá, transformou o grupo na principal orquestra da América Latina. Sua personalidade polêmica, no entanto, começou a se chocar há dois anos com o governador José Serra. Nos bastidores, falava-se no desejo do governo de substituir o maestro; publicamente, o secretário de Estado da Cultura, João Sayad, questionava o valor de seu salário, cerca de R$ 120 mil.Em resposta, durante um ensaio, Neschling chamou o governador de "menino mimado" e "autoritário" - as declarações foram gravadas e colocadas no You Tube. Em junho do ano passado, afirmando estar cansado das especulações sobre sua permanência ou não no cargo, o maestro disse, em carta enviada ao presidente da Fundação Osesp, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, que não pretendia renovar seu contrato em 2010. A fundação anunciou logo em seguida que iniciava a busca pelo substituto, tarefa para a qual seriam contratados dois consultores, o americano Henry Fogel e o inglês Timothy Walker.No começo de dezembro, no entanto, em entrevista ao Estado, Neschling afirmou que sua carta não era um documento oficial e que pretendia ficar na orquestra por pelo menos mais dois anos, participando do processo de escolha de seu substituto. O maestro criticava também a atuação do conselho de administração da fundação. Em resposta, a Fundação Osesp informou que o conselho, por unanimidade, havia julgado que as declarações de Neschling criavam um ambiente intolerável de trabalho e votado pela sua demissão imediata."A manifestação pública de Vossa Senhoria deixa poucas dúvidas quanto à possibilidade - como era nossa intenção - de uma convivência harmoniosa, no processo de sucessão, evidenciando conduta indesejável e inconciliável com o desempenho das atribuições contratuais", dizia a carta de demissão enviada por e-mail ao maestro.No início de fevereiro foi anunciado o nome do francês Yan Pascal Tortelier, que havia regido a Osesp como convidado em 2008, para o posto de regente-titular. O Estado apurou que Tortelier, ao contrário de Neschling, não recebe um salário mensal e é pago por semana de trabalho; segundo fontes ligadas à orquestra, o valor a ser gasto neste ano com a direção artística da Osesp é o mesmo dos anos anteriores.

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