Neste ano, 9 protestos ocorreram em favelas

Manifestações são a reação da população contra poder público

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

03 de setembro de 2009 | 00h00

O protesto incendiário da comunidade de Heliópolis, na zona sul de São Paulo, anteontem, já foi repetido por moradores de outras favelas da cidade, sempre como reação da população a um descontentamento com o poder público. Levantamento feito pelo Estado mostra que, desde o início do ano, foram outras oito manifestações parecidas (com queima de veículos, barricadas e enfrentamento com a polícia) -, a penúltima semana passada, no Tremembé (zona norte). Desapropriações, falta de transporte público e morte de algum morador - de forma acidental ou em enfrentamento - foram o estopim para os protestos, que parecem seguir o mesmo enredo em endereços diferentes.

O fenômeno em sequência, acredita o presidente da Comissão de Segurança do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (Ibccrim), Renato de Vitto, é bastante simbólico. "Usuários de ônibus danificarem um bem público que eles próprios utilizam exterioriza a revolta dos moradores com o Estado", afirma. "É um grito de descrença, a constatação de que as políticas públicas são seletivas e não chegam a eles."

Em janeiro deste ano, a primeira manifestação popular foi na Favela Tiquatira, na zona leste, em resposta à falta de abrigos municipais depois do incêndio que destruiu barracos. A Marginal do Tietê foi fechada e pedras atiradas contra policiais (que responderam com tiros de borracha). No mês seguinte, Paraisópolis, na zona sul, foi palco da guerrilha. Barricadas, feridos e presos tiveram como causas duas versões. A comunidade reclamava da ação violenta da polícia e de um morador morto. A polícia dizia que um importante traficante foi derrubado.

Em abril, o protesto na Favela Cidade Jardim, na zona sul, foi pela falta de água havia dois dias. Em maio, desapropriações teriam rebelado a Favela da Cidade Tiradentes (na zona leste).

Dias depois, mais uma vez, a Tiquatira queimou ônibus para ganhar voz após a prisão de três supostos traficantes. Ainda no mesmo mês, a comunidade do Jardim Aracati, na zona sul, interditou o trânsito com pneus queimados para pedir transporte público melhor.

Em julho, a demolição de barracos inflou a Favela do Sapo, na Água Branca (zona oeste). Semana passada, a Favela Filhos da Terra, no Tremembé, queimou ônibus e carros. O motivo, segundo moradores, é que um inocente foi executado. Policiais falam em uma peça do crime tirada do jogo.

Guaracy Mingardi, cientista político e autor do livro Estado e o Crime Organizado, avalia que a semelhança de reações é reflexo da teoria sociológica da imitação. "Esses protestos vêm em onda, são muito parecidos até porque são inspirados um nos outros", afirma.

"O efeito de cópia só é preocupante porque a polícia precisa estar preparada. Não pode repetir os erros de atirar para não perder o criminoso e colocar em risco outra vida", critica. Desde julho, foram quatro vítimas de balas perdidas, duas crianças.

A tese de que o protesto de Heliópolis foi orquestrado para estar na mídia "não anula a importância da reivindicação das comunidades que lutam para sair da invisibilidade", opina Paula Miraglia, diretora do Instituto Latino-Americano para a Prevenção do Delito.

A organização semelhante dos protestos também acarreta vítimas parecidas. Jurema Azevedo assistiu só pela televisão ao protesto de Heliópolis, mas garante ter sentido "a mesma taquicardia ao ver a adolescente morta que sentiu semana passada".

Neste dia, seu filho de 20 anos morreu e deu início ao protesto na comunidade do Tremembé. Para a polícia, era o traficante Ronan. Para ela, seu filho "Cheirinho".

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