'Ninguém está seguro', diz ex-gerente da Previ

Santiago afirma apostar na continuidade de suposto esquema de espionagem petista, do qual teria sido um dos operadores de 2000 a 2007

Gabriela Moreira / RIO, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2010 | 00h00

Espião. Xavier Santiago: responsável pela montagem de pelo menos quatro dossiês para o PT    

 

 

 

 

Ex-gerente de planejamento do fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (Previ), entre 2000 e 2007, o advogado Gerardo Xavier Santiago afirmou ontem apostar na continuidade do suposto esquema de espionagem petista, do qual teria sido um dos operadores.

Em entrevista à revista Veja, Santiago afirmou que a Previ é uma "fábrica de dossiês" e um "braço partidário" a serviço de um grupo do PT. Disse que, "cumprindo ordens superiores", elaborou dossiês contra deputados e senadores da oposição.

O advogado apontou "aparelhamento do Estado" por parte do PT e disse que o método de espionagem teria se alastrado por diversos setores do governo. "Depois que se toma gosto, que se aprende a fazer, ninguém mais está seguro", ressaltou. Ele contou ter feito pelo menos quatro dossiês encomendados pelo que ele chama de núcleo bancário do partido.

"O PT é uma federação de grupos. O serviço que eu prestava era para um determinado grupo, que era liderado por Ricardo Berzoini, Luiz Gushiken e João Vaccari Neto, entre outros", acusou Santiago, que decidiu processar o Banco do Brasil por assédio moral, na Justiça do Trabalho.

O elo do grupo bancário com o fundo de pensão, segundo ele, era feito pelo então presidente Sérgio Rosa, que hoje preside o conselho de administração da Vale. "Por isso, eu digo que esse grupo não pode ser dado como descartado. O código de governança corporativa da Previ prevê rodízio da vaga de presidente do conselho com o presidente da Previ, que não é mais ele. Quem ele representa lá? O PT? A campanha da Dilma? É estranho isso."

Aposta. Santiago contou que decidiu revelar o que sabe porque começou a ficar "inquieto" ao perceber que estava se tornando "um funcionário de um determinado grupo político". Segundo ele, isso se deu em 2005, durante a CPI dos Correios, quando a maioria dos dossiês teria sido produzida. "Esse episódio significa a frustração de uma parte da minha vida. Foi a aposta que eu fiz desde a minha juventude numa proposta política, num projeto político que se degenerou", afirmou Santiago, que admitiu ganhar cerca de R$ 13 mil por mês pelo serviço, "além do cargo no conselho da Vale".

Para o advogado, produzir dossiês não é crime. "Eu chamo isso de serviço de inteligência. Mas queria deixar claro que eu entendo que não cometi nenhuma ilegalidade nem estou acusando ninguém de ter cometido ilegalidades. A discussão que eu coloco é do ponto de vista político, moral e ético."

O ex-gerente da Previ rechaça, também, as acusações de que estaria fazendo as revelações para atingir a campanha da petista Dilma Rousseff. "Eu dei a entrevista (à revista Veja, publicada nesta semana), há dois anos, quando nem havia candidatos definidos. Não poderia desestabilizar candidatura de ninguém. Até porque, no que se diz respeito à candidatura presidencial, se interessa a alguém saber eu vou votar no Plínio (de Arruda Sampaio, do PSOL).

Previ sustenta que presença de Rosa na Vale é legal

A assessoria de imprensa da Previ negou que o ex-presidente Sérgio Rosa esteja ferindo o código de governança corporativa do fundo, uma vez que não há normas que o impeçam de continuar no Conselho da Vale após deixarem o cargo. De acordo com a assessoria, Sérgio Rosa ficará no conselho até abril de 2011, mesmo tendo deixado de ser presidente da Previ em maio passado.

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