No abrigo Barroso, um microcosmo de Itajaí

Reportagem passou a madrugada de sexta-feira com 250 desabrigados

, O Estadao de S.Paulo

29 Novembro 2008 | 00h00

O sono teima em não aparecer nas dependências do abrigo Barroso, no centro de Itajaí. As lágrimas, sim. Essas são abundantes. Celso Roberto Bartelti, um senhor franzino de 57 anos que odeia fazer a barba e está sempre coçando a cabeça grisalha, nunca teve um filho. Achou que não levava jeito para esse negócio de fraldas e choradeiras e coisas do gênero. Mesmo assim, enquanto passeia com suas pantufas coloridas de peixinho no meio das 250 pessoas que dormem no chão do Clube Esportivo Barroso, no centro de Itajaí, absolutamente todos ali o chamam de pai. "Boa noite, pai", acena uma garotinha de 7 anos de idade, que se encolhe de frio em um colchonete fino que mais parece um lençol. "Dorme bem, minha criança", responde, "que amanhã tem mais diversão e brincadeira".Não há nada assim muito divertido no abrigo Barroso, que desde segunda-feira serve de casa improvisada para centenas de desalojados pelas chuvas que destruíram boa parte do Vale do Itajaí, em Santa Catarina. É um prédio todo de concreto com um grande e simples salão para bailes, decorado de forma igualmente muito simples para dois bailes e um casamento que estavam previstos para ocorrer durante a semana passada. Às vezes é difícil acreditar que há algum tipo de organização, sanidade ou civilidade por ali - muitas e muitas crianças, mais de cem delas, gritam e correm para todos os lados. Elas simplesmente não conseguem dormir, ficam até as 3 horas da manhã em claro conversando e chorando. "Tenho medo de dormir porque não conheço ninguém aqui", conta Marina, uma menina de 5 anos que não sabe dizer direito o próprio sobrenome - "Esqueci...", alega -, mas com maturidade suficiente para entender o sentimento geral no abrigo.A reportagem do Estado passou a noite de quinta para sexta-feira no Barroso com os desalojados. Famílias de até cinco pessoas cabem inexplicavelmente em apenas um colchão de casal. Poucos sacos de roupas parecem ser tudo o que sobrou para a maioria deles. Dois adultos se xingam para saber quem vai tomar banho primeiro (não faz nem dois dias que um senhor foi expulso por tentar se aproveitar de uma garota; ele acabou conhecido como o "taradão da madrugada"). Uma mulher tropeça em uma cadeira e quase quebra o nariz. Ninguém ajuda. Ela começa a chorar. Ninguém ouve.Assim, o abrigo Barroso nada mais é do que um microcosmo da região, um exemplo feito de concreto, colchonetes e muitas tristezas sobre o que é viver atualmente no Vale do Itajaí. Não deixa de ser também uma valiosa lição de vida. Ao mesmo tempo que há brigas pelo chuveiro, crianças sem controle, denúncias de furtos, taradões da madrugada e todo o tipo de picuinha, há um número muito maior de exemplos de solidariedade, de ajuda, de humanidade. Há Giovana Luz da Silva, uma menina de 9 anos que acorda com os irmãos Pedro e André às 7 horas para ajudar no café da manhã dos seus colegas desabrigados. Há Leoni Pegorario de Andrade, de 42 anos, que está sempre de olho na segurança das crianças e não descansa antes de boa parte delas adormecer. E há, entre tantos outros personagens, o franzino Celso Roberto Bartelti, o "pai", que abriu as portas do Barroso para os desalojados e não dorme desde segunda-feira para garantir a tranqüilidade deles. "Eu vi pela televisão que centenas de pessoas desabrigadas pela chuva estavam se amontoando em uma escola aqui do bairro", diz Bartelti, há dois anos no posto de presidente do clube social e esportivo Barroso. "Peguei as chaves do portão do Barroso, abri o clube e comecei a receber as pessoas que estavam vagando pelas ruas. Em poucas horas, já tinha inscrito 470 desalojados, sendo 250 crianças e 22 grávidas. Não pensei nas conseqüências nem planejei o que fazer depois de abrir os portões. Foi aí que eu me tornei o pai para todos eles."REGRASO ponto mais crítico aconteceu na terça-feira, quando dezenas de pessoas que estavam no abrigo apareceram com sacos de arroz, caixas de cerveja, eletrodomésticos e até uma televisão de plasma roubados de um supermercado do bairro. Bartelti não deixou eles entrarem. Confiscou a comida e os eletrodomésticos (ele guarda tudo em uma sala e promete devolver quando as coisas voltarem à normalidade), quebrou as garrafas de bebida alcoólica na calçada e abriu as latinhas de dez caixas de cerveja. "Uma a uma", conta, rindo alto.A partir daí o abrigo começou a ter regras mais rígidas e virou uma espécie de pequena comunidade. A primeira medida foi estabelecer horários. O café da manhã é servido das 7 às 9 horas, o almoço está na mesa às 12 horas e o jantar às 19 horas. Cada morador temporário do local também tem direito a uma muda de roupa por dia, que vem de doação. Às vezes não há muitas opções e na noite de quinta-feira a estudante Grazielle Parenhos, de 19 anos, era obrigada a usar uma camiseta dos Power Rangers."Quando a rotina apareceu, acho que as pessoas perceberam que era preciso respeitar o próximo como se fosse um familiar, mesmo que fosse um familiar tampão", diz Leoni Pegorario de Andrade, chorando, tanto por tristeza quanto por cansaço. Ela chegou com o marido e dois filhos na segunda-feira, depois que a água na sua casa em um bairro afastado de Itajaí chegou à altura da boca. "As noites continuam sendo difíceis, porque as pessoas têm de ficar mais quietas e têm de pensar na realidade. É aí que cai a ficha. Só melhora de manhã, quando aparece a luz do dia e volta a esperança de podermos retornar para casa e continuar nossas vidas."

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