No Acre, índios têm espingardas

Mais difícil do que encontrar uma arma na Floresta Amazônica é localizar o seu dono. Ainda mais quando ele é um guerreiro indígena kulina. O agente federal Adriano Barros da Silveira, de 26 anos, tentou fazer isso, sem sucesso. Ele e sete colegas da Polícia Federal do Acre foram destacados em março para uma missão de 30 dias de viagem de barco para recadastrar armas de seringueiros, ribeirinhos e indígenas nos rincões do Rio Purus, um dos principais que cortam o Estado. Os policiais foram recebidos com festejos por onde passavam. Menos pela etnia kulina, em Sobral, que sumiu assim que a incursão chegou. O desaparecimento dos guerreiros só foi esclarecido na tribo rival, dos kaxinawá: eles celebravam e zombavam dos kulina, que se embrenharam na mata por três dias por acharem que os homens em trajes de guerra próximos da aldeia queriam atacá-los.Outra tribo kulina, de Santa Júlia, reagiu da mesma forma. Os policiais pediram aos índios mais velhos, mulheres e crianças na aldeia que convencessem os guerreiros a regularizar as armas. Mas, desconfiados dos homens brancos, responderam que "índio caça com arco e flecha" e dispensaram os policiais. "Mas sabemos que eles têm armas, porque é impossível sobreviver no interior do Acre sem espingarda. Ficaram com medo que as levássemos", diz Adriano. "Na região é comum andar por caminhos longos na mata fechada, onde só passa uma pessoa por vez. Além de instrumento de caça, a arma serve para afugentar os bichos", relata o agente, citando a grande população de onças e de queixadas - agressivos porcos-do-mato que andam em bando. Os agentes enfrentaram noites maldormidas na selva e até indigestão ao provar carne de anta.Uma das surpresas da operação foi quando encontraram rifles do século 19, utilizados na revolução acreana, quando o Estado pertencia à Bolívia, utilizados por vários ribeirinhos para caça.

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