No antigo Eldorado, garimpeiros vivem do Bolsa-Família

Entregue à pobreza, a serra de onde saíram 13 toneladas de ouro abriga hoje 7 mil garimpeiros que sonham com fortuna

Leonencio Nossa, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

A história de Serra Pelada teve início em 1980, quando um grupo de garimpeiros encontrou ouro na superfície de uma grota na Fazenda Três Barras. Logo uma multidão com bateias se acotovelava na área em busca de fortuna. Não demorou para aparecer no garimpo o oficial do Exército Sebastião Curió Rodrigues de Moura, veterano dos combates à Guerrilha do Araguaia, liquidada cinco anos antes a 100 quilômetros dali.

Enviado pelo governo federal, Curió controlou a mina com mão de ferro, proibindo a entrada de mulheres, bebidas e armas. O ouro extraído era vendido para a Caixa Econômica Federal e para a Docegeo, subsidiária da Vale. O auge da produção ocorreu em 1983, quando foram retiradas oficialmente 13,9 toneladas de ouro. À época, órgãos oficiais chegaram a contar 67 mil garimpeiros na mina.

Em 1984, com a queda na produção e o aumento do número de acidentes e desmoronamentos na cava que se transformou em formigueiro humano, o governo ordenou o fechamento do garimpo. A Vale detinha, desde então, os direitos sobre a área. Mas os milhares de garimpeiros resistiam a abrir mão do ouro, fincaram pé no local e conseguiram prorrogar, sucessivas vezes, o direito de permanecer na mina. Em troca, a Vale chegou a receber do governo uma indenização de R$ 59 milhões. Em 1992, com Fernando Collor presidente, o garimpo foi de fato fechado.

Hoje, Serra Pelada é um povoado entregue à pobreza. Muitos de seus 7 mil habitantes vivem do Bolsa-Família. A promessa de reabertura do garimpo e o anúncio da chegada da Colossus renovaram as esperanças de parte da população. Outra parte, liderada por opositores dos "maranhenses" que estão no comando da cooperativa, promete resistir.

A Colossus chegou com mão-forte. Até a chácara a partir da qual Curió controlou a massa de garimpeiros, após o declínio da mina, foi comprada pela empresa, que ali montou o seu QG.

Presidentes. Um de seus diretores, Heleno Costa, passou a ocupar o lugar. Não fosse cancelada por duas vezes, a visita de Lula a Serra Pelada seria a segunda de um presidente da República ao antigo garimpo. Em 1982, o general João Batista Figueiredo foi carregado nos ombros de garimpeiros e até tirou fotos com a roupa suja de melexete, a lama vermelha saída dos buracos da mina.

Como agora, em 2010, naquele ano os brasileiros iam às urnas para eleger governadores, senadores e deputados. Figueiredo estava no garimpo para pedir votos para os candidatos do PDS do Pará. Quase 30 anos depois, a viagem de Figueiredo ainda é lembrada pelos garimpeiros.

Eles associam o nome do último presidente do regime militar à liberação do garimpo para a categoria. Lula, o mais novo depositário da confiança dos garimpeiros, chegou a receber em audiência dirigentes da Coomigasp. Na ocasião, afirmou ser questão de honra para seu governo autorizar a sonhada reabertura da mina.

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