Washington Alves/Reuters
Washington Alves/Reuters

No Brasil, Estado conta com certa apatia

As tragédias sempre foram crônicas de uma morte anunciada

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2019 | 03h00

Historicamente, nós temos um Estado não preventivo. Nós temos um Estado, com sorte e em alguns casos, que atua de forma terapêutica. Ele reage a tragédias, mas reage mediante opinião pública e possível dano e custo eleitoral disso. Nos Estados Unidos, por exemplo, além do custo eleitoral, existe o medo do processo. Aqui, recentemente, há um medo de processo do dano eleitoral. Então, você tem de achar um culpado, mas isso não significa uma nova política para a área.

O Estado brasileiro conta com uma certa apatia. Se você considerar que o incêndio da boate Cromañón, lá em Buenos Aires, representou mais de um ano de passeatas diárias, com a participação do cardeal de Buenos Aires, hoje papa Francisco, e que o incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, já foi esquecido, e nada de fato resultou daquilo, existe uma coisa que os nossos poderes, tanto empresariais quanto públicos, contam com a apatia das pessoas. A tragédia será esquecida.

Afinal, vem a seguinte pergunta: quantos estão presos? Se eu levar em conta essa resposta, Brumadinho é fácil de explicar. É mais barato responder a um dano eventual do que criar um sistema coletivo de prevenção de tragédias. Isso em todos os campos. É recente o fenômeno das campanhas de vacinação. Preferimos enfrentar epidemias. Em algumas vezes, enfrentamos epidemias que já foram vencidas ou estiveram próximo de terem sido vencidas, como é o caso da febre amarela. A falta de uma política pública de vacinação faz ressurgir um fantasma do fim do século XIX, da época que levou à Revolta da Vacina no início do século XX. Nunca saímos dessa situação. Mas sempre foi assim.

As tragédias sempre foram crônicas de uma morte anunciada. Dá-se um exemplo. A cidade de São Paulo teve uma ponte na Marginal Pinheiros que se deslocou. Não conseguiram ver com clareza sequer a quem pertencia a responsabilidade pela manutenção da ponte. Em seguida, uma ponte na Marginal em direção à Via Dutra também apresentou danos. Muitas pontes estão assim. E não há uma reação pública proporcional. Mesmo quando se prendem engenheiros que deveriam ter feito a vistoria existe a grita de algumas pessoas. Não sei se são os únicos responsáveis, não tenho conhecimento se há mais gente. Agora, no mínimo, aqueles que fizeram a inspeção e não interditaram são responsáveis. No mínimo.

É difícil esperar do Estado uma ação na medida em que o objetivo do Estado brasileiro não tem sido o bem-estar da população, mas um projeto de poder fechado nele mesmo. À medida que as coisas ocorrem e não há punição, eu permito que isso se repita indefinidamente. Essa falta de mobilização sistemática da nossa população já era alvo de reclamação de D. Pedro II em XIX. Ele reclamava que era uma população fácil de inflamar, mas que dificilmente mantinha esse fogo. É muito fácil haver uma comoção nacional. Mas ela passa diante de outra tragédia ou do tempo simplesmente. Nunca saímos desse estado.

Basta a gente investigar todas as nossas tragédias recentes. Mesmo aquelas que não tiveram perdas humanas, como o incêndio do Museu Nacional do Rio. A pergunta é: quem está preso por manter um prédio histórico sem nenhuma segurança? Ninguém. Quais foram as medidas para os prédios que correm de pegar fogo? Nenhuma. O que acontecerá quando esses prédios pegarem fogo? Nada. É muito mais barato manter esse sistema. A falta de coerção introduz um consenso permanente de que não preciso fazer isso. Se o dano for enorme a um partido, por exemplo, a tradição é mudar o nome do partido e refundá-lo. Onde estão os assassinos do boate Kiss? Onde estão os administradores do Museu Nacional? Continuam livres. Continuam aí. E os políticos se recandidataram. É uma política geral de impunidade que pode ter encontrado nas redes sociais um obstáculo que ainda não se revestiu em algo efetivo. Mas podem ter encontrado um obstáculo.

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