No cartaz de festa, logotipo da Prefeitura e nome de Chokr

Peça de divulgação da comemoração do bairro inclui advogado acusado de pagar propinas da máfia dos caça-níqueis a 84 distritos policiais de São Paulo

Agencia Estado

21 de junho de 2007 | 13h04

No dia 10 de dezembro foi realizada a festa de 100 anos do bairro do Cambuci, na região central de São Paulo. No cartaz promocional, aparecia o logotipo da Prefeitura; a Subprefeitura da Sé e a Secretaria de Coordenação de Subprefeituras eram identificadas como realizadoras do evento. Ao lado, sob a inscrição "apoio", estava o nome do escritório de "assessoria empresarial" de Jamil Chokr, o advogado acusado de pagar propinas da máfia dos caça-níqueis a 84 distritos policiais de São Paulo.O advogado já admitiu que deu cerca de R$ 2 mil para a confecção de cartazes e convites da festa a pedido de Wanderlei Araújo, funcionário da Subprefeitura da Vila Mariana. Araújo foi formalmente exonerado, na quarta-feira, 20, do órgão municipal, por ter cometido "falta gravíssima", afirmou Andrea Matarazzo, subprefeito da Sé e secretário das Subprefeituras.O subprefeito de Vila Mariana, Fábio Lepique, disse na terça-feira que Araújo tinha pedido o patrocínio de Chokr para uma festa de fim de ano de servidores, realizada no Cambuci. Lepique não revelou que se tratava da comemoração pelos 100 anos do bairro; só fez isso na quarta.Matarazzo, por sua vez, afirmou que o evento do Cambuci não foi organizado pela Prefeitura. Ele disse não saber quem foi o responsável pela confecção do cartaz. "Não é evento oficial da Prefeitura. Como também o uso do logotipo da Prefeitura é ilegal. Mas se usa a marca na divulgação de vários eventos. No ano passado, por causa de um show do Juca Chaves, tinha faixas com ‘o apoio’ da Prefeitura em toda a cidade."DivulgaçãoA divulgação da festa foi feita pela Assessoria de Imprensa da Secretaria das Subprefeituras. Material enviado à imprensa em dezembro anunciava que "o domingo terá sabor de grande comemoração" no Cambuci. "Para festejar os 100 anos do bairro, a Secretaria de Coordenação das Subprefeituras e a Subprefeitura da Sé oferecem neste domingo, dia 10 de dezembro, uma programação especial para a região: música, dança, feira de artesanato, serviços e exposição", diz o texto publicado no site da secretaria em 7 de dezembro. O material tem frase atribuída a Matarazzo: "A comunidade do Cambuci é participativa e os equipamentos públicos da região, como o Pólo Cultural e o Centro Educacional e Esportivo, são reflexo desta integração." A programação de 10 de dezembro, realizada na Avenida Lins de Vasconcelos, durou das 10 às 17 horas. Houve desfile cívico, homenagem a moradores antigos do Cambuci e apresentações musicais num palco com o logotipo da Prefeitura ao fundo. Boletim no site da administração informou que a Subprefeitura da Sé fez mutirão de saúde durante o evento, com aferição de pressão arterial, acuidade visual e teste glicêmico.Para Matarazzo, a divulgação da festa foi cortesia da Prefeitura, como ocorre com qualquer comemoração de bairro. "Quando um bairro faz festa, eles pedem para ajudar a divulgar. Posso te assegurar que não tem nada a ver. Se tiver a ‘Festa da Pipoca de Guaianases’, certamente vai ter apoio da Prefeitura, vamos divulgar. É a forma de prestigiar as comunidades. Cem anos do Cambuci não acontece todo dia", disse. "Anormal é a ação do servidor, tanto que foi exonerado. Qual é a distorção aí? Não é a subprefeitura apoiar um evento da comunidade. O absurdo, a anormalidade, é um funcionário, qualquer que seja, de qualquer escalão, pedir dinheiro para esse tipo de coisa, para qualquer pessoa que seja.""Patrocínio"Chokr admitiu o pagamento de "R$ 2 mil ou R$ 2,5 mil" para a festa. Disse que, quando foi procurado por Araújo, demonstrou preocupação sobre a legalidade do patrocínio. "Ele disse que não (daria problema), isso aqui é totalmente certo", afirmou Chokr na terça-feira, 19, em entrevista exclusiva ao Estado. Segundo o advogado, o servidor disse que lojistas da região já haviam ajudado na organização do evento. "Ele (Araújo) contou ainda que poderia colocar o embleminha de apoio e o escritório pode aparecer."Lepique disse não saber como um funcionário da Subprefeitura de Vila Mariana pediu dinheiro para um evento no Cambuci. "Isso é um absurdo. Não tem nada a ver com a relação funcional dele. É provável que se aproveitou de uma situação para pegar dinheiro", disse o subprefeito, que pedirá ajuda à polícia para apurar o caso.Já existe uma investigação no Ministério Público Estadual sobre as relações de Chokr com investigadores e três servidores da Subprefeitura da Vila Mariana que aparecem em supostas listas de propina: Araújo, o fiscal Milton de Oliveira Júnior e o supervisor de Fiscalização Jorge Habe Ghosn. Na segunda-feira, Matarazzo já tinha afastado o chefe de Fiscalização da Subprefeitura da Sé, Reginaldo Fazzion, flagrado pela Polícia Federal pedindo R$ 30 mil a um empresário para tentar impedir o fechamento de um bingo no Ipiranga.

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