No cemitério, Exército prepara covas e tenta ajudar famílias

Militares contam com a ajuda de dezenas de pedreiros voluntários que auxiliam a preparação do cimento usado para fechar os túmulos

Diego Zanchetta, de O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2013 | 21h44

O sol ainda não tinha surgido em Santa Maria quando um batalhão quase inteiro do Exército entrou no Cemitério Ecumênico Municipal. Por volta das 6 horas, com lanternas e lâmpadas improvisadas em pequenos interruptores móveis, cerca de 150 soldados tiveram a difícil missão de preparar 79 covas para enterro coletivo de 82 jovens - a vítima mais velha da tragédia sepultada no local ontem tinha 27 anos.

Os militares contaram com a ajuda de dezenas de pedreiros voluntários que ajudaram a preparar o cimento usado para fechar os túmulos. Eram 9 horas quando entraram os dois primeiros corpos, dos irmãos Pedro e Marcelo Silva, de 18 e 21 anos. A postura sisuda de alguns soldados que estavam na entrada do cemitério desabou quando o pai dos garotos, seu Manuel da Silva, de 54 anos, gritou aos prantos: "eu não quero enterrar meu filho, por favor, eu não quero enterrar ele."

Em poucos minutos o maior cemitério de Santa Maria parecia concentrar toda a dor de um povo sempre orgulhoso de sua população estudantil - a cidade de 300 mil habitantes tem cerca de 7 mil estudantes universitários em 26 cursos de graduação. "Esses jovens que tornam a cidade alegre e sempre cheia de festas. Olha agora quantos deles estão sendo colocados na gaveta de uma parede", apontava em direção aos túmulos de parede do cemitério o taxista Alfredo Falk, de 61 anos, que perdeu um sobrinho de 17 anos na festa, estudante de Agronomia.

Era comum ver parentes tentando retirar os pais de frente dos túmulos após o enterro. Os gritos de desespero e inconformismo ecoavam em cada corredor do cemitério. Mais de 20 pessoas foram retiradas do local em ambulâncias, após passarem mal. Mesmo quem não tinha conhecido ou parente entre os mortos foi prestar sua homenagem. "Essa gurizada era como nossos filhos, a gente via eles na lanchonete, na rodoviária, nas ruas. Santa Maria sempre acolheu essa juventude que sai de casa na esperança de buscar novos rumos na vida. É por isso que é tão dolorido para nós todos", dizia o farmacêutico Lourival Palmas, de 39 anos.

Nas ruas, quase todo estabelecimento comercial tinha uma fita preta na porta, em luto pelos mortos. Freiras de conventos de todo o país também chegaram no início da tarde à cidade, para tentar confortar parentes que não queriam arredar pé do cemitério após o enterro de seus filhos. "O pai que enterra um filho nessas condições demora anos para aceitar o que houve. Muitos não vão conseguir retomar sua vida jamais", avaliava a freira Nilda Jardim dos Santos, de 61 anos, de Cruz Alta.

O soldado Felipe Bussi, de 20 anos, lamentava a morte do amigo Leandro Nunes, soldado da Base Aérea de Santa Maria, conhecido como Carioca. "Era um cara gente fina, servimos juntos. Muito dolorido", falou o soldado.

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