WILTON JUNIOR/AE
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No debate, estratégia é de ''paz e amor''

Equipes de Dilma e Serra orientaram os candidatos a manter postura amena, mas a abordar assuntos críticos para os adversários

Julia Duailibi e João Domingos, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2010 | 00h00

No primeiro enfrentamento direto do segundo turno, os comandos das campanhas de Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) orientaram os seus respectivos candidatos, conhecidos por terem temperamento forte, a exibirem uma postura "paz e amor", evitando agressividade desnecessária no debate da Band de hoje.

Dilma e Serra também foram preparados a abordar e a responder a questões polêmicas, como o aborto e as privatizações.

A candidata petista foi orientada a pôr em prática, mais do que nunca, a "terapia do copo d''água". Trata-se de tomar um copo de água - ou de refletir por alguns segundos - antes de dar uma resposta malcriada, caso não goste da pergunta ou de uma insinuação do tucano.

O PSDB orientou Serra a adotar um tom "ameno" e a evitar erros cometidos na eleição de 2006, quando o então candidato Geraldo Alckmin caiu nas armadilhas colocadas pelo PT e manteve postura agressiva contra o adversário Luiz Inácio Lula da Silva, que tentava a reeleição.

Serra participou de uma primeira reunião preparatória na madrugada de sexta-feira. Após participar de encontro com integrantes do DEM, foi até o estúdio alugado pelo PSDB, na zona oeste paulistana, gravar o programa do horário eleitoral. Por volta da 1 hora da manhã, um pequeno grupo de cinco colaboradores, formado basicamente pelos seus marqueteiros e assessores de comunicação, começou a discutir as linhas gerais do debate.

O encontro de sexta-feira se estendeu até às cinco horas da manhã. Estava prevista uma nova reunião na noite de sábado, quando seriam definidas perguntas e temas mais específicos.

Os tucanos não descartaram perguntas sobre a "valorização da vida", leia-se aborto. A avaliação inicial é que o candidato não deve tocar diretamente no assunto. Mas embutir o tema numa questão mais programática. Na estreia do programa na TV, na sexta-feira, Serra falou sobre o assunto ao mencionar o "respeito à vida". O tema poderá ser abordado, por exemplo, no contexto de sua proposta para gestantes, o Mãe Brasileira.

Dilma já tem pronta a resposta, se for questionada: vai se declarar a favor da vida, da família, dizer que é mãe e avó. E sempre que tiver oportunidade, procurará ligar Serra ao processo de privatização no governo de FHC.

Serra defenderá as privatizações. A orientação é para que não fique na defensiva. A exemplo do que disse em seu discurso no evento de lançamento do segundo turno da campanha, na quarta-feira em Brasília, citará os benefícios que as privatizações trouxeram para setores da economia, como telefonia. Deve ainda insistir no argumento de que Lula também privatizou no seu governo (Banco do Estado do Maranhão e Banco do Estado do Ceará), além de ter promovido concessões de rodovias federais.

A defesa do tema tem como objetivo evitar que Serra caia em armadilha semelhante à colocada pelo PT na campanha de Alckmin em 2006. Acusado de defender as privatizações, o então presidenciável ficou acuado e adotou uma postura agressiva, e considerada arrogante, contra Lula.

Os coordenadores da campanha de Dilma também usaram um exemplo que já se tornou clássico para convencer a candidata a não passar a imagem de arrogante. Em 1998, o então governador de Brasília, Cristovam Buarque, humilhou Joaquim Roriz que, espertamente, deu corda para que o adversário o ridicularizasse, passando ao telespectador a imagem de vítima. O eleitor reagiu à forma autoritária com que Cristovam se mostrou e, contra todas as expectativas, elegeu Roriz. Ambas as campanhas lembraram os candidatos que a arrogância é um tipo de erro que o eleitor não perdoa.

Laboratório. Desde que as urnas decidiram pelo segundo turno, Dilma tem feito exercícios para testar até onde vai a sua paciência - que é curta. As entrevistas coletivas tornaram-se um de seus laboratórios preferidos. Antes, estes encontros com os jornalistas eram organizados, com púlpito para os microfones das TVs e gravadores, com todo mundo a uma certa distância.

Agora, por conselho de Lula, tornaram-se o mais puro retrato do "quebra-queixo" selvagem, em que os repórteres empurram microfones e gravadores rumo ao queixo do entrevistado.

Os tucanos ainda aguardam as pesquisas de intenção de voto do final de semana para calibrar o tom do discurso do candidato.

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