No DF, atividades reduzem violência e vandalismo

Para mudar rotina, diretora trouxe pais para dentro de escola

João Domingos, O Estadao de S.Paulo

15 de novembro de 2008 | 00h00

Há um ano, o Centro de Ensino Fundamental 24, na periferia da cidade-satélite de Ceilândia, no Distrito Federal, foi alvo de vandalismo por parte de alunos. O quebra-quebra promovido por cinco adolescentes foi registrado em vídeo, a Polícia Civil abriu inquérito e os alunos foram transferidos. Um dos envolvidos morreu em 2008, após forte dor de cabeça. Comenta-se que apanhou numa briga e hematomas no cérebro provocaram a morte. Antes, duas garotas brigaram. Uma bateu a cabeça da outra no chão até provocar sangramento. Inaugurado em 1998 no Setor P de Ceilândia, a mais populosa (cerca de 400 mil habitantes) e das mais pobres do Distrito Federal, a violência sempre acompanhou o CEF 24. Mas desde o início das aulas deste ano a situação mudou. A escola saiu das ocorrências policiais. As cem páginas de anotações de irregularidades preenchidas num semestre caíram para dez. A situação mudou tanto que no próximo dia 20 a diretora da escola, Sirlei de Lourdes Moreira, psicopedagoga de 38 anos que assumiu a função no início deste ano, falará ao Ministério Público sobre as suas medidas saneadoras. Ela não fez mágica. Apenas procurou adaptar a escola a uma comunidade carente, em que os pais saem para trabalhar de madrugada e deixam os filhos sozinhos. "Muitos chegam aqui sem nenhuma noção de moral, de religião e mesmo de respeito familiar", diz ela. "A escola é uma extensão das casas. O melhor a fazer era trazer os pais para dentro dela." Assim, adotou-se o projeto Escola Aberta: nos fins de semana, qualquer pessoa da comunidade pode usar a escola para o lazer ou para cursos de caratê, judô, pintura, reciclagem de papel, atividades artísticas, construção de imãs de geladeira, futebol, música, informática, dança e grafite. Os vizinhos adoraram. Tanto é que o muro da escola, que não ficava de pé, nunca mais foi derrubado por vândalos. "As pessoas o derrubavam para entrar no terreno e fazer desmanche de carros ou usar drogas. Isso acabou", diz Sirlei. Também acabou a pichação. Um ano atrás, as paredes da escola eram pichadas do teto ao chão, tanto do lado de dentro quanto do lado de fora. Hoje, não há sinal de pichação. A escola tem muitos alunos grafiteiros e eles cobriram as paredes externas com sua arte. Um deles é Bruno Alexandre, de 12 anos. Filho de motorista de ônibus e de manicure, diz que adora a escola. Tanto que se inscreveu num programa inventado por Sirlei, chamado Agente da Paz. Já são 50 os alunos que aderiram ao grupo, que tem por missão promover a paz. "Estamos planejando atuar na creche", relatam Ana Carolina, de 12 anos, e Anne Nathane, de 13. "Porque as porradas começam quando as crianças são pequenininhas. Queremos que elas aprendam a não agir assim", dizem. A CEF 24 tem 1.870 alunos. Muitos, da zona rural, caminham até dois quilômetros para chegar à estrada onde um ônibus os pega. Desde o Escola Aberta, fazem questão de ir até lá também nos fins de semana.

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