No elevador, o destino da nação

Enquanto começava a cirurgia de Tancredo, Ulysses dizia a um lívido Sarney que lhe caberia salvar o novo regime: 'Você tem que assumir'

Carlos Marchi, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

Quando a porta do elevador do Hospital de Base de Brasília se abriu, o deputado Ulysses Guimarães, então presidente da Câmara, argumentava com o general Leônidas Pires Gonçalves, que no dia seguinte seria ministro do Exército e garantidor da posse do novo presidente, e o então senador Fernando Henrique Cardoso. A um canto do elevador, o senador José Sarney, eleito vice-presidente, só ouvia, congelado e lívido. Hesitei. Sem parar de falar, Ulysses fez um meneio com os dedos, como quem diz: "Entre."

Naquele momento da longa noite de 14 de março de 1985, há exatos 25 anos, começava a cirurgia do presidente eleito Tancredo Neves, cuja posse estava marcada para a manhã seguinte. No elevador, Ulysses dizia que a posse daquele lívido Sarney salvaria o novo regime: "Você tem que assumir." Sarney assentia com a cabeça. "Temos dois dilemas. Um é a situação militar, que Leônidas garante ser tranquila. Outra é (o presidente João) Figueiredo, que não quer transmitir o cargo a você", dizia Ulysses, enquanto escrevinhava a História do Brasil.

Todos batiam cabeça. Mauro Salles, principal assessor de Tancredo, disse: "Façam o que lhes parecer indicado." Ninguém treinara para uma posse presidencial abortada horas antes por uma doença. Nos dias anteriores, Tancredo recusara bravamente a cirurgia. Já no hospital, Francisco Dornelles, seu sobrinho e indicado para o Ministério da Fazenda, pediu-lhe que cedesse. "Figueiredo não dá posse a Sarney", afirmou Tancredo. Dornelles replicou: "Leitão me garantiu que Sarney toma posse." Tancredo, afinal, se dobrou.

No dia da posse, Sarney convocou o novo ministro da Justiça, Fernando Lyra, para o café da manhã. "Ele estava muito tenso", revela Lyra. A perplexidade de Sarney, que até julho de 1984 era um dos principais sustentáculos do regime militar, nos 38 dias seguintes se enraizaria no povo, que viu o sonho democrático, encarnado por Tancredo, se desfazer dolorosamente numa série de equívocos médicos.

Tancredo se fez candidato depois que a Emenda das Diretas caiu na Câmara. Como o presidente seria eleito por um Congresso no qual o governo militar tinha maioria, era preciso conquistar adesões entre os governistas. Tancredo fez isso com rara habilidade. Numa manhã de outubro de 1984, Aécio Neves me confidenciou: "Vô fechou com ACM." Com os votos controlados pelo então senador baiano Antônio Carlos Magalhães, outro dissidente do regime, Tancredo garantia virtualmente sua eleição.

A campanha foi dura e tensa. Na madrugada de 26 de novembro uma bomba incendiária explodiu no comitê de Tancredo. Às 6 da manhã, Péricles Forreaux, major da PM mineira e chefe da segurança, ligou: "Vá para o comitê e distraia os jornalistas." Tancredo abriu a porta, expôs o rosto sorridente e, sem mirar a sala calcinada, disse com tranquilidade estudada: "Eles não gostam é de vocês." Foi tudo. Internamente, baixou uma ordem: nem mais uma palavra sobre o atentado.

Com o tempo, a perplexidade popular ante o martírio de Tancredo foi fantasiada pela incredulidade ante as versões da doença. Anos depois, um motorista de táxi que me levava para o hotel relatou "informações secretas": Tancredo fora alvejado num atentado. Expliquei que era assessor de Tancredo e aquela versão era uma suprema fantasia. Mas percebi que nada o convenceria. Para sublimar a decepção, já que não lhes deram fatos cabais, as pessoas construíram uma versão lavrada pelas extravagâncias da fantasia popular.

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