No enterro da filha, pai passou de introvertido a ''psicopata''

Silva é descrito como pouco amoroso e depressivo, mas não violento

LEONENCIO NOSSA e VITOR HUGO BRANDALISE, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

Kleber Barbosa da Silva, de 31 anos, era um homem introvertido, sem amigos e econômico nos afetos à mulher, Erica, de 23, e à filha, Penélope, de 5. Essas características eram vistas apenas como as de um rapaz "tímido" e "sistemático" até o fim da tarde de anteontem. No enterro de Penélope, na tarde de ontem, o comportamento dele foi reavaliado e associado à exaustão ao de um "psicopata", "louco" e "assassino", pelos mesmos parentes. Nenhuma pessoa da família, porém, relatou qualquer agressão dele à mulher. Silva e Erica viviam juntos havia seis anos. Em 2004, nasceu a única filha do casal. "Nunca percebemos nada de estranho", contou Vanessa Lopes, prima de Erica. "Agora, ele não era um pai amoroso, de brincar com a filha, de fazer chamego." Rita de Cássia Barroso, diretora da Estrelinhas do Futuro, escola onde Penélope cursava o Jardim 2, ressalta que o pai foi apenas três vezes levar ou buscar a filha. A menina começou a estudar em janeiro. Quem ia sempre à escola era Erica. "Pela alegria e pelo jeito carinhoso da Penélope nunca poderia imaginar que havia um conflito familiar", disse. Erica, por sua vez, é uma mulher extrovertida, que gosta de conversar, contam amigas. A relação com Silva, porém, era marcada por conflitos e dificuldades. Ele não trabalhava. Desde que passaram a morar juntos, os dois recebiam ajuda financeira da mãe dele, que vive na Espanha. O casal e a criança chegaram a morar duas vezes no país europeu, em períodos de seis meses e um ano. Silva ajudou a mãe numa barraca de venda de frutas e verduras. Há poucas semanas, Erica se matriculou num curso de cabeleireira do Senac em Goiânia. Ia a pé para o curso todos os dias. O marido não a levava no Vectra, comprado com dinheiro da mãe. As amigas de Erica contam que ela sonhava com a independência do companheiro. Erica e Silva, porém, formavam um típico casal da periferia da capital de Goiás, uma cidade com elevado índice de desemprego entre jovens e com escolas públicas sem qualidade. Eles se conheceram numa escola de ensino médio da periferia, viviam na mesma faixa de renda - a classe média baixa -, mas se diferenciaram quando a mãe de Silva se separou do marido e foi viver como imigrante na Espanha. O dinheiro recebido por ele, porém, não foi suficiente para manter uma boa relação em casa. O convívio do casal - que morava num condomínio de classe média baixa em Aparecida de Goiânia - se tornou "conflituoso" nos últimos seis meses , de acordo com um primo dela."Kleber contou várias vezes que iria se matar e matar Erica e a filha", afirmou o primo de Erica. "Ele não era violento, mas sofria de depressão com frequência." Silva já tinha passagem pela polícia, acusado de lesão corporal leve, por se envolver em uma briga, ao lado da mãe, contra uma terceira pessoa. O caso ocorreu em 1996 e o processo foi arquivado.Já Valdemar Fernandes, tio de Erica, lembrou que, antes da tragédia, Silva levou a mulher e a filha para um hotel em Caldas Novas, estância termal a 170 km de Goiânia, onde ficaram de quarta-feira até a manhã de sexta. "Antes de viajar, ele sacou todo dinheiro que estava na conta da Erica; com uma parte pagou o hotel e com a outra comprou a arma usada para roubar o avião." Essa arma, porém, não foi encontrada até agora pela polícia.AVIÕESSilva era visto "com frequência" em aeroclubes dos arredores de Goiânia e costumava participar de voos panorâmicos alugados. "Como ele conhecia alguns pilotos, convencia-os a deixá-lo pilotar os aviões nos voos panorâmicos que fazia", disse o delegado Jorge Moreira. Segundo o relato de familiares, Silva havia comentado que, neste ano, pretendia iniciar os procedimentos para tirar seu brevê. "Ela tinha alguma experiência, é perceptível pelos rasantes que deu antes de fazer a aeronave cair."

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